Crise sanitária nos EUA abre caminho para Brasil ampliar influência na saúde global

São Paulo – A instabilidade que marcou o sistema de saúde dos Estados Unidos em 2025, aliada ao recrudescimento de doenças como o sarampo, pode favorecer a projeção internacional do Brasil em assuntos sanitários, avaliam especialistas.

A turbulência começou em junho, quando 17 integrantes do comitê consultivo de vacinação do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) foram demitidos e substituídos por nomes ligados ao movimento antivacina. Em agosto, diretores da agência renunciaram após discordar de mudanças sem respaldo científico, especialmente a orientação presidencial que relacionou o uso de paracetamol ao autismo.

No mesmo período, o secretário de Saúde norte-americano, Robert F. Kennedy Jr., reforçou discursos sem comprovação científica e passou a ocupar cargos-chave do CDC com profissionais de visão semelhante.

Recrudescimento do sarampo

O cenário de hesitação vacinal contribuiu para o pior índice de casos de sarampo em 30 anos nos EUA. Levantamento mostra que um em cada seis pais no país atrasou ou pulou vacinas infantis, e um painel consultivo deixou de recomendar a imunização contra hepatite B para recém-nascidos.

Em países asiáticos — como Camboja, Mongólia, Filipinas e Vietnã — também houve aumento de registros de sarampo nos primeiros meses de 2025, situação classificada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como “retorno perigoso” de doenças preveníveis.

Efeito global

Decisões internas dos EUA impactam outros países porque orientações do CDC costumam servir de referência internacional. A retirada norte-americana da OMS, determinada pelo governo Trump, já provocou cortes de financiamento que atingiram programas de combate ao HIV e outras infecções.

Para Deisy Ventura, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, o enfraquecimento de órgãos norte-americanos exige que o Brasil “proclame independência sanitária”. Ela destaca o SUS, a Fiocruz e a produção científica nacional como bases para essa liderança.

O sanitarista Claudio Maierovitch, da Fiocruz Brasília, lembra que a redução da cobertura vacinal no Brasil deveria ter levado a campanhas mais robustas, mas reconhece avanços históricos do país no combate ao sarampo. Já o infectologista André Siqueira, do DNDi, aponta o financiamento insuficiente em saúde e pesquisa como principal obstáculo para o protagonismo brasileiro.

Apesar dos desafios, especialistas veem espaço para o Brasil ocupar as lacunas deixadas pelos EUA e fortalecer a cooperação internacional em saúde pública.

Com informações de Folha de S.Paulo

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