A saúde pública brasileira inicia 2026 sob pressões conhecidas e intensificadas pela disputa eleitoral. Especialistas ouvidos apontam dificuldades adicionais para planejar e tomar decisões de longo prazo no Sistema Único de Saúde (SUS) em um cenário de polarização política, orçamento restrito e promessas de resultados rápidos.
Orçamento sem folga
O Congresso aprovou em 19 de dezembro o Orçamento de 2026, fixando despesas totais em R$ 6,5 trilhões. Para ações e serviços públicos de saúde foram reservados R$ 254,9 bilhões, cifra apenas R$ 7,4 bilhões acima do piso constitucional, que determina a aplicação mínima de 15% da receita corrente líquida da União no setor.
Para o médico e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, Gonzalo Vecina Neto, o financiamento deve permanecer estável: “Não vai piorar, mas também não vai melhorar. Vai ser a mesma coisa”, afirma.
Filas e assistência especializada
Com recursos limitados, a organização do sistema ganha destaque. Vecina considera a regulação do acesso a consultas especializadas e exames o maior gargalo do SUS. Programas emergenciais, como o Mais Especialistas — uma das vitrines do governo Lula — ajudam, mas não resolvem o problema. Ele defende a criação de filas únicas, regionais e transparentes para tornar o atendimento mais ágil.
Novo modelo de pagamento
O ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, pesquisador da Fiocruz, destaca avanços do Mais Especialistas ao substituir o pagamento por procedimento por modalidades ligadas a resultados. Mesmo assim, avalia que a iniciativa não tem escala para eliminar os gargalos de acesso.
Emendas parlamentares e planejamento
Temporão critica o peso crescente das emendas parlamentares: 32% das 7.408 emendas apresentadas ao Orçamento de 2026 — o equivalente a R$ 21,4 bilhões — destinaram recursos à saúde. Segundo ele, esse mecanismo “sequestra” verbas do Ministério da Saúde, reduz a governabilidade e dificulta a definição de prioridades nacionais.
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Campanhas mais realistas
A professora da UFRJ Ligia Bahia acredita que a saúde seguirá no centro do debate eleitoral, mas com propostas menos grandiosas do que em pleitos anteriores. “Talvez a gente entre em 2026 com os dois pés no chão”, afirma. Para ela, a oncologia precisa ser priorizada diante do envelhecimento populacional.
Vigilância e desinformação
Temporão defende a criação de um organismo nacional robusto de inteligência epidemiológica, capaz de monitorar emergências sanitárias e os efeitos das mudanças climáticas. A superintendente da Umane, Thais Junqueira, acrescenta que anos eleitorais ampliam a circulação de informações falsas, sobretudo sobre vacinação. Ela cobra a consolidação de sistemas de alerta precoce para doenças respiratórias e outras ameaças.
Expectativa modesta
Apesar de temas como câncer, filas, financiamento, vigilância, clima, vacinação e violência contra a mulher, os especialistas concordam que 2026 não deve trazer grandes reformas estruturais. O desafio, afirmam, será definir prioridades realistas, executar metas de curto prazo e evitar soluções fáceis ou discursos polarizados.
Com informações de Folha de S.Paulo





