As tatuagens deixaram de ser exceção para se tornar parte do cotidiano, mas os efeitos biológicos da tinta sob a pele ainda estão longe de ser totalmente compreendidos. Estudos recentes indicam que os pigmentos injetados no corpo não permanecem inertes e podem alterar o funcionamento do sistema imunológico.
Composição química complexa
As tintas usadas em estúdios reúnem pigmentos, veículos líquidos, conservantes e pequenas impurezas. Muitos desses pigmentos foram originalmente criados para usos industriais — de tintas automotivas a toners de impressora —, não para aplicação em tecidos humanos.
Algumas formulações contêm traços de metais pesados como níquel, cromo, cobalto e, ocasionalmente, chumbo. Já os corantes azóicos podem se decompor em aminas aromáticas potencialmente cancerígenas quando expostos à luz solar ou durante remoção a laser. As tintas pretas, geralmente feitas de negro de fumo, podem incluir hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (PAHs), alguns classificados como carcinógenos.
Reações na pele e além dela
Quando a agulha atinge a derme, o organismo identifica as partículas de tinta como corpos estranhos. Células imunológicas tentam eliminá-las, mas o tamanho dos pigmentos impede a remoção completa, garantindo a permanência do desenho. Parte desse material, porém, migra pelo sistema linfático e se acumula em gânglios, estruturas-chave da defesa do corpo.
Tintas coloridas — especialmente vermelha, amarela e laranja — são mais associadas a reações alérgicas e inflamações crônicas, que podem surgir meses ou anos após a aplicação.
Impacto sobre a resposta imune
Pesquisa recente mostrou que os pigmentos absorvidos por células da pele podem manter o sistema imunológico ativado por até dois meses e reduzir a eficácia de determinadas vacinas, como a da Covid-19, quando aplicadas sobre áreas tatuadas. Os cientistas observaram liberação de sinais inflamatórios nos gânglios linfáticos próximos ao local da tatuagem.
Evidências sobre câncer ainda são limitadas
Não há confirmação epidemiológica de que tatuagens causem câncer em humanos. Contudo, testes de laboratório e estudos com animais apontam que alguns pigmentos podem se degradar ao longo do tempo ou sob luz ultravioleta, formando subprodutos tóxicos.
Imagem: Internet
Infecções e regulamentação
Além das reações químicas, o procedimento de tatuar pode levar a infecções por Staphylococcus aureus, hepatites B e C e, raramente, micobactérias atípicas se não houver condições adequadas de higiene.
A regulação das tintas varia pelo mundo. Na maioria dos países, elas são fiscalizadas com menos rigor que cosméticos, e fabricantes não precisam divulgar todos os ingredientes. A União Europeia estabeleceu limites mais estritos para substâncias perigosas, mas a aplicação das regras é irregular globalmente.
Exposição cumulativa
Especialistas chamam atenção para a carga química crescente à medida que tatuagens se tornam maiores, mais numerosas e coloridas. Sol, envelhecimento, alterações na resposta imune ou sessões de remoção a laser podem modificar a interação dessas substâncias com o organismo, especialmente em pessoas com doenças autoimunes ou sistema imunológico comprometido.
Com informações de Folha de S.Paulo





