Brasília – Programas de apoio a estudantes e docentes que conciliam a maternidade com a carreira acadêmica começam a ganhar espaço em universidades e órgãos de fomento do país, porém as medidas ainda não formam uma política contínua e abrangente.
Primeiros passos em nível nacional
Em março, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) lançou o Programa Aurora, que reservará de 200 a 300 bolsas para professoras de pós-graduação grávidas ou com filhos de até dois anos. O benefício inclui a contratação de assistentes de pesquisa, permitindo que as docentes mantenham produção científica durante o período.
Segundo a presidente da Capes, Denise Pires de Carvalho, o objetivo é reduzir o “efeito tesoura” – queda da participação feminina nos níveis mais altos da carreira. O edital deve ser divulgado ainda em junho.
A diretora-executiva da Associação de Mães Pesquisadoras Estudantes e Trabalhadoras (Ampet), Vanessa Suany, avalia que a iniciativa é positiva, mas restrita. “Estudos do Parent in Science indicam impacto dos filhos na trajetória das mães até, no mínimo, os seis anos de idade”, lembra. Ela defende ação integrada de diferentes ministérios para enfrentar barreiras de empregabilidade.
Experiências nas universidades
Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o edital Mães Pesquisadoras de 2024, voltado a professoras com filhos, recebeu mais de 100 propostas. O número de vagas subiu de 15 para 40. No ano seguinte, outro edital contemplou 15 alunas de graduação com bolsas de iniciação científica até a conclusão do curso.
Entre as selecionadas está Thallyana Souza, 42, que pesquisa energia eólica offshore. “O projeto reforça nossa capacidade de produzir conhecimento e abre portas para novas oportunidades”, afirma.
A pró-reitora de Pesquisa da UFRN, Silvana Zucolotto, sustenta que o incentivo ainda na graduação é essencial: “Sem oportunidade na base, muitas não chegarão a se tornar professoras ou pesquisadoras”.
Imagem: Internet
Rede de apoio informal
Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o grupo Mães na Universidade foi criado em 2021 e oferece oficinas, rodas de conversa, assistência psicológica e preparação para a pós-graduação. A cofundadora Mithaly Corrêa, 35, lembra que as estudantes mães da graduação, muitas em situação de vulnerabilidade, enfrentam desafios maiores que os de pós-graduação, sobretudo pela falta de infraestrutura adequada.
A catarinense Cristiani Derner, 34, conheceu o projeto após longos intervalos na vida acadêmica. Grávida aos 18 anos, só conseguiu ingressar na universidade quando a filha tinha oito. Hoje, cursa mestrado em serviço social graças à rede de apoio. “Ser mãe na universidade é lutar diariamente para permanecer”, resume.
Próximos passos do governo federal
O Ministério da Educação aguarda, para este ano, a publicação do Censo da Pós-Graduação e o relatório do Grupo de Trabalho para a Política Nacional de Permanência Materna. Entre as propostas em discussão estão ampliação do prazo de jubilamento para mães, bônus em editais internos e implantação de cuidotecas – espaços de acolhimento para pais e filhos nos campi.
Apesar dos avanços pontuais, gestoras e pesquisadoras concordam que ainda falta uma estratégia sistêmica que garanta a permanência e a progressão de mulheres com filhos em todas as etapas da vida acadêmica.
Com informações de Folha de S.Paulo





