Um barracão de apenas 18 m², instalado no sítio onde Ann e Alexander “Sasha” Shulgin viveram por 36 anos em Lafayette, Califórnia (EUA), tornou-se referência central para a pesquisa psicodélica mundial. Foi ali que, com a ajuda de um grupo de cerca de dez amigos, o químico sintetizou e testou mais de 200 substâncias, entre elas a metilenodioximetanfetamina (MDMA), criada em 1912 e resgatada pelo casal nos anos 1970 para uso terapêutico.
Os detalhes dessas auto-experimentações estão reunidos nos livros “PiHKAL” (1991) e “TiHKAL” (1997). Segundo Wendy Tucker, filha de Ann Shulgin, a divulgação do primeiro volume, somada a entrevistas dadas por Sasha, levou a Agência de Combate às Drogas dos Estados Unidos (DEA) a cassar a licença que o permitia manusear substâncias controladas.
Interdição do MDMA e mobilização científica
Com a popularização do MDMA em festas rave, a droga foi proibida em 1985. No ano seguinte, Rick Doblin criou a Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos (MAPS) com o objetivo de restabelecer o composto como tratamento para transtorno de estresse pós-traumático. Apesar dos esforços, a Food and Drug Administration (FDA) não aprovou a terceira tentativa de uso clínico da substância.
Tour pela propriedade
Responsável pela administração do local, Wendy Tucker recebe visitantes e conduz um passeio que inclui o quarto onde Sasha morreu em 2014, a sala em que Ann atendia pacientes com MDMA e o escritório repleto de arquivos — um deles identificado como “crap written by illiterates” (“porcarias escritas por iletrados”).
O laboratório, situado a cerca de 20 metros da casa principal, continua em funcionamento. O químico Paul Daly, que colaborou com Sasha nos últimos anos de vida do pesquisador, utiliza o espaço para analisar níveis de mescalina em cactos dos gêneros Echinopsis (san pedro) e Lophophora (peiote), cultivados no jardim.
Imagem: Internet
Fundação Shulgin e novos debates
No celeiro da propriedade ocorrem workshops de respiração holotrópica promovidos pela Fundação Shulgin. Um cartaz pendurado sobre o piano saúda ironicamente a DEA, lembrando a operação de 1994 que resultou na perda da licença de Sasha.
Criada por Wendy há três anos, a fundação busca doações para preservar o sítio. Ela imagina o local como um “Camp David psicodélico”, destinado a abrigar conversas delicadas entre povos indígenas, empresários, políticos conservadores e militares — temas que pautariam os três dias seguintes da conferência Psychedelic Culture.
Com informações de Folha de S.Paulo





