Um ensaio clínico randomizado divulgado nesta quinta-feira (30) na revista The Lancet mostrou que a administração semanal de semaglutida — princípio ativo dos medicamentos Ozempic e Wegovy — reduziu de forma expressiva o consumo excessivo de álcool em adultos com transtorno por uso de álcool e obesidade.
No início da pesquisa, os 108 participantes registravam, em média, 17 dias de ingestão abusiva de bebidas alcoólicas nos 30 dias anteriores. Após seis meses de tratamento, esse índice caiu para aproximadamente cinco dias entre os voluntários que receberam 2,4 mg de semaglutida, contra nove dias no grupo placebo.
O volume total de álcool ingerido também encolheu. A média mensal passou de cerca de 2.200 g para 650 g no grupo tratado, enquanto o grupo controle reduziu para 1.175 g no mesmo período.
O estudo foi conduzido entre junho de 2023 e fevereiro de 2025 no Mental Health Center Copenhagen, na Dinamarca. Participaram 53 mulheres e 55 homens, com idade média de 52 anos e índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m². Além das injeções semanais, todos receberam até dez sessões de terapia cognitivo-comportamental.
Os autores destacam que os resultados podem ampliar o uso da semaglutida, pois atualmente apenas três medicamentos têm aval da FDA para tratar o transtorno por uso de álcool, responsável por cerca de 5% das mortes globais anuais.
A pesquisa teve financiamento parcial da Fundação Novo Nordisk, ligada ao fabricante do fármaco, mas os pesquisadores afirmam que a empresa não interferiu no desenho, na coleta ou na análise dos dados.
Efeitos adversos gastrointestinais foram os mais reportados: náusea atingiu 57% dos participantes que receberam semaglutida (7% no placebo), constipação 35% (17% no placebo) e refluxo 28% (2% no placebo). Quatro voluntários deixaram o estudo por reações colaterais, classificadas como leves a moderadas.
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Os cientistas ressaltam limitações importantes, como amostra pequena, maioria de participantes brancos e foco exclusivo em pessoas com obesidade, o que restringe a aplicação dos achados. Também não foram coletados dados após o término do tratamento, impedindo saber se os efeitos se mantêm a longo prazo.
Outra incerteza é se a redução do consumo de álcool ocorre independentemente da perda de peso. Houve correlação significativa entre emagrecimento e queda na ingestão alcoólica apenas no grupo semaglutida, mas o estudo não mediu a ingestão calórica total.
Pesquisadores sugerem que o medicamento possa atuar em vias neurobiológicas ligadas ao metabolismo e à recompensa cerebral, mas afirmam que novos trabalhos são necessários antes de recomendar o uso off-label da substância para transtorno por uso de álcool.
Com informações de Folha de S.Paulo





