São Paulo – Referência no estudo de doenças infecciosas, a imunologista Ester Sabino, 66, professora titular da Faculdade de Medicina da USP, conta que teve seu trabalho questionado por colegas homens mesmo após chefiar equipes e assinar pesquisas de destaque.
Entre 2015 e 2019, Sabino dirigiu o Instituto de Medicina Tropical de São Paulo. No início de 2020, liderou o grupo que realizou o primeiro sequenciamento do genoma do Sars-CoV-2 no país. Apesar do currículo, um pesquisador chegou a indagar a terceiros se era ela quem realmente conduzia os estudos que afirmava coordenar. “Não importava o que eu tivesse feito, ele achava que eu não era capaz”, relatou.
O depoimento integra a pesquisa “Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras”, produzida pelo Estúdio Clarice. O levantamento aponta que apenas 23% das mulheres entrevistadas se sentem poderosas no ambiente de trabalho – percentuais que incluem Ester.
Obstáculos ao longo da trajetória
A cientista menciona episódios recorrentes de machismo: propostas ignoradas em reuniões, negativas sem justificativa clara e a saída de um grupo de pesquisa por discordâncias com colegas, todos homens. “É como aquela imagem do homem caminhando livremente, enquanto a mulher avança entre obstáculos”, comparou.
A percepção de que esses obstáculos faziam parte de uma cultura de discriminação só ficou evidente, segundo ela, após a projeção conquistada com o sequenciamento do coronavírus. Convidada para debates sobre igualdade de gênero, Sabino diz ter “dissipado a névoa” que encobria o problema.
Incentivo a outras mulheres
Durante a pandemia, a pesquisadora integrou o grupo Mulheres do Brasil, capitaneado pela empresária Luiza Trajano. Na ocasião, considerou “maluca” a proposta de instalar laboratórios de sequenciamento em cada capital, mas o entusiasmo da líder a convenceu. “Quando alguém acredita, as coisas acontecem – e aconteceram”, disse.
Imagem: mulheres na pesquisa
Desde 2021, o Governo de São Paulo concede o Prêmio Ester Sabino para Mulheres Cientistas, homenagem anual destinada a pesquisadoras de destaque. Sabino também adota ações individuais para apoiar colegas: “Sempre que chego a um lugar, peço para falar antes com as gerentes mulheres; quero empoderá-las”.
Embora reconheça avanços e se sinta hoje em posição de influência, a professora afirma que o machismo persiste e exige vigilância constante. “Precisamos ficar atentas às mulheres ao nosso redor e oferecer apoio”, concluiu.
Com informações de Folha de S.Paulo





