Gírias da geração Z dificultam diálogo entre mães e filhos e viram tema nas redes

Expressões como “old”, “juro” e “pprt” tornaram-se parte do vocabulário cotidiano de adolescentes e jovens adultos nascidos entre 1997 e 2012, a chamada geração Z. O uso intenso de abreviações, memes e códigos digitais tem colocado à prova a comunicação dentro de casa, especialmente com as mães, que se veem diante de um idioma em constante mutação.

Conversas que viralizam

O choque linguístico ganhou destaque quando a atriz Ingrid Guimarães publicou, nas redes sociais, uma sequência de mensagens com a filha Clara, 16. Na troca, a adolescente pediu para sair numa noite de sábado, usou o termo “várzea” para definir o programa e encerrou com “-1.000 aura” após a negativa da mãe. O diálogo rendeu milhares de compartilhamentos e expôs a dificuldade de compreensão entre as gerações.

Adaptação em família

Andreia Borges, 41, líder operacional na Escola Veredas, em São Bernardo do Campo (SP), é mãe de Julia, 25, João Vitor, 22, e Júlio César, 17. Ela conta que, com o caçula, a conversa às vezes emperra. “Ou você pede para ele explicar, ou não tem diálogo”, afirma. Criada num ambiente mais formal, Andreia tentou corrigir as gírias dos filhos mais velhos, mas adotou postura mais flexível com Júlio. “Para manter proximidade, não dá para tratar tudo como erro”, diz.

O estudante confirma que o repertório muda conforme o grupo de amigos. “Alguns usam um tipo de gíria, outros usam outra. Eu vou pegando”, explica.

Humor como ponte

Sem filhos, mas com 12 anos de experiência como professor de biologia no Instituto Federal do Rio de Janeiro, Franklin Medrado transformou o tema em conteúdo para internet. Seus vídeos, nos quais interpreta uma mãe tentando decifrar o jargão do filho, somam 4,2 milhões de seguidores apenas no Instagram. “As mães comentam: ‘tenho um igual em casa’. Percebi que havia um universo para explorar”, relata. Ele carrega um caderno e observa adolescentes em restaurantes ou transportes públicos para abastecer o roteiro semanal.

Por que tanta gíria?

Segundo o psicólogo José Carlos Ferrigno, autor de “Da Infância à Velhice: O Fenômeno Cultural das Gerações”, criar um dialeto próprio é parte do processo de afirmação de identidade na juventude. A linguista Luciana Migliaccio acrescenta que, hoje, as expressões surgem sobretudo em redes como X (antigo Twitter) e TikTok, além de jogos online. “Não é exclusividade dos jovens; todo grupo social desenvolve sua linguagem, como acontece no mercado financeiro”, compara.

Mensagens encurtadas e figurinhas

Na casa de Andrea Figueiredo, 52, vice-presidente do Instituto Fefig, a comunicação com as filhas Luisa Millan, 23, e Isadora Millan, 20, muitas vezes se resume a três palavras ou a um sticker. “Se eu não entendo, aviso que não respondo”, diz a mãe, que já se confundiu com uma figurinha de um cachorro numa frigideira. Isadora explica: “Significa que a pessoa está se sentindo coitadinha”. As filhas acham “cringe” quando a mãe tenta incorporar os termos. “Ela usa fora de contexto”, comenta Luisa.

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Imagem: Internet

Orientação de especialistas

Para Adriana Fontes, professora de artes no Colégio Rio Branco (SP), adultos que forçam o uso das expressões acabam provocando vergonha alheia. A diretora da Escola Veredas, Andrea Piloto, recomenda evitar julgamentos e perguntar o significado sempre que surgir uma dúvida. Ferrigno concorda: “Boa vontade, respeito e humor facilitam a aproximação”.

Pequeno glossário

Entre os termos mais citados por mães, filhos e especialistas estão:

  • Cpa: variação de “se pá”, talvez.
  • Farmar aura: ganhar prestígio; perder pontos vira “-1000 aura”.
  • Flopar: fracassar; hitar é o oposto.
  • Gag: ficar chocado ou impressionado.
  • Ir de base: morrer ou ser eliminado.
  • Old: algo óbvio, já sabido.
  • Pprt: abreviação de “papo reto”, conversa direta.
  • Shade: indireta ou alfinetada.
  • Tankar: suportar, aguentar.
  • Várzea: situação bagunçada, porém divertida.

A lista cresce diariamente, impulsionada por tendências digitais que se espalham em alta velocidade, mantendo pais e filhos em permanente processo de tradução.

Com informações de Folha de S.Paulo

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