IA tende a moldar opiniões de usuários durante escrita, aponta estudo da Science Advances

Uma pesquisa publicada em março na revista Science Advances indica que ferramentas de inteligência artificial capazes de sugerir trechos de texto podem alterar a opinião de quem escreve sem que o usuário perceba a mudança.

O trabalho foi conduzido por Sterling Williams-Ceci, da Universidade Cornell (Estados Unidos), e Maurice Jakesch, vinculado à Cornell e à Universidade Bauhaus (Alemanha). No total, 2.582 voluntários recrutados pela plataforma Prolific participaram dos testes.

Os pesquisadores dividiram os participantes em dois grupos: um recebeu auxílio do ChatGPT configurado para apresentar sugestões deliberadamente tendenciosas; o outro escreveu sem qualquer intervenção de IA. Prompts criados pelos cientistas fizeram o modelo apoiar posições específicas mesmo quando o texto original do usuário apontava na direção oposta.

Resultados dos experimentos

No primeiro experimento, os voluntários redigiram textos sobre o uso de exames padronizados na educação. Entre os que receberam ajuda da IA — programada para defender essas provas — apenas 30,8% rejeitaram as sugestões apresentadas.

Outro teste abordou quatro temas: pena de morte (IA contrária), direito de voto a condenados (IA contrária), cultivo de organismos geneticamente modificados (IA favorável) e fracking para extração de gás natural (IA favorável). Nessa etapa, 35,3% recusaram as propostas da ferramenta, enquanto a maioria as incorporou.

Opiniões medidas antes e depois

No segundo experimento, os autores coletaram a posição inicial dos participantes sobre cada tema e repetiram a pergunta após a redação assistida. O grupo exposto à IA aproximou suas respostas das sugestões do modelo, embora grande parte dos voluntários declarasse não ter sido influenciada e considerasse o texto “razoável e equilibrado”. No grupo controle, sem IA, não houve variação significativa.

IA tende a moldar opiniões de usuários durante escrita, aponta estudo da Science Advances - Imagem do artigo original

Imagem: Internet

Possíveis impactos

Para Renato Vicente, diretor do TELUS Digital Research Hub da USP, que não participou do estudo, o resultado revela um “viés cognitivo de oráculo”, no qual os usuários atribuem às máquinas acesso privilegiado à verdade. Ele alerta para o risco de desestabilização de democracias quando algoritmos tendenciosos se combinam a sistemas de recomendação e hiperpersonalização.

Os autores destacam que o efeito persiste mesmo quando o usuário é avisado sobre possíveis vieses e que a influência abrange inclusive participantes com posições inicialmente extremas. Eles sugerem novas investigações para compreender o alcance de longo prazo e desenvolver estratégias de mitigação.

Vicente acrescenta que ainda não se sabe se a mudança de opinião é duradoura, recomendando estudos com outras faixas demográficas.

Com informações de Folha de S.Paulo

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