Universidades federais de Minas pedem desculpas por uso de cadáveres de pacientes psiquiátricos em aulas

A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) divulgou, nesta segunda-feira (18), carta aberta reconhecendo a utilização de corpos de pessoas internadas em hospitais psiquiátricos em suas aulas de anatomia entre as décadas de 1960 e 1970. A iniciativa segue posicionamento semelhante adotado no mês passado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

No documento, a UFJF admite ter sido conivente “em um dos momentos mais sensíveis da história da saúde pública do país” ao receber 169 cadáveres do Hospital Colônia de Barbacena entre 1962 e 1971. A instituição destaca que a segregação social imposta aos internos resultou em violências diversas e reforçou estigmas associados à chamada “loucura”.

Medidas de reparação

Como forma de reparação simbólica, a UFJF se compromete a:

  • promover ações educativas sobre direitos humanos e saúde mental;
  • buscar apoio para a criação de um memorial;
  • organizar pesquisas documentais que investiguem relações da universidade com o Hospital Colônia.

Desde 2010, o Departamento de Anatomia da UFJF mantém o programa de doação voluntária de corpos “Sempre Vivo”, que segue normas legais e atua com campanhas de sensibilização dirigidas à sociedade e aos estudantes da área da saúde.

Posicionamento da UFMG

A UFMG também pediu desculpas públicas por ter recebido cadáveres provenientes do Hospital Colônia de Barbacena, onde se estima que mais de 60 mil pessoas morreram ao longo do século XX. A instituição afirma que o reconhecimento de sua responsabilidade vem acompanhado de:

  • parcerias com movimentos da luta antimanicomial para ações de memória;
  • restauração do livro histórico de registro de cadáveres;
  • inclusão do tema nas aulas de anatomia da Faculdade de Medicina.

Desde 1999, a UFMG mantém programa de doação voluntária e consentida de corpos, prática classificada pela universidade como legal, ética e alinhada a padrões internacionais.

O Hospital Colônia de Barbacena, tema do livro “Holocausto Brasileiro”, da jornalista Daniela Arbex, comercializou 1.853 corpos de internos para 17 instituições de ensino médico em todo o país. A obra relata que muitos pacientes foram sepultados como indigentes ou destinados a estudos anatômicos sem consentimento.

Os pedidos de desculpas das duas universidades integram o movimento nacional pela valorização dos direitos humanos e pela revisão crítica da história da psiquiatria no Brasil.

Com informações de Agência Brasil

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