UFJF e UFMG pedem desculpas pelo uso de corpos de pacientes psiquiátricos em aulas de anatomia

Pelo menos duas universidades federais mineiras reconheceram publicamente a utilização de cadáveres de internos de hospitais psiquiátricos em atividades acadêmicas. A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) divulgou nota de retratação nesta segunda-feira (18), enquanto a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) já havia se pronunciado em abril.

Retratação da UFJF

Em carta aberta, a UFJF admitiu participação “em um dos momentos mais sensíveis da história da saúde pública do país”. A instituição reconheceu que a segregação de pessoas classificadas como “loucas” resultou em violações de direitos e práticas punitivas, motivadas por critérios de gênero, classe social, orientação sexual e raça.

Registros mostram que, entre 1962 e 1971, o Instituto de Ciências Biológicas da UFJF recebeu 169 corpos de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena para estudos de anatomia. O estabelecimento, conhecido por graves abusos, teve mais de 60 mil mortes ao longo do século XX e vendeu 1.853 cadáveres a 17 escolas de saúde, segundo o livro “Holocausto Brasileiro”, de Daniela Arbex.

Como medida de reparação simbólica, a UFJF anunciou ações educativas sobre direitos humanos e saúde mental, pesquisas documentais sobre a relação com o Hospital Colônia e a criação de um memorial. Desde 2010, o departamento de anatomia da universidade só aceita corpos doados voluntariamente, por meio do programa “Sempre Vivo”.

Posicionamento da UFMG

A UFMG também formalizou pedido de desculpas por ter recebido cadáveres do Hospital Colônia. A universidade informou que acompanha o reconhecimento público com iniciativas de memória em parceria com movimentos antimanicomiais, restauração do livro de registro de cadáveres e inclusão do tema em disciplinas da Faculdade de Medicina.

Desde 1999, a UFMG mantém programa de doação voluntária de corpos, prática que segue normas legais e padrões internacionais de ética.

Contexto histórico e cultural

A divulgação dos pedidos de desculpas ocorre durante o mês em que se destaca a luta antimanicomial no Brasil, movimento que combate a violência contra pessoas com transtornos mentais. Temas relacionados inspiraram obras como “O Alienista”, de Machado de Assis, e o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira, lembrado pelo Museu Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro.

Com informações de Agência Brasil

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