Desigualdade no acesso à saúde obriga idosos a longas viagens no interior e a enfrentar filas nas capitais

A falta de médicos e de serviços especializados faz com que idosos que vivem fora dos grandes centros percorram longas distâncias para receber atendimento, enquanto moradores das capitais aguardam meses — ou anos — por procedimentos na rede pública.

O aposentado Eronildes dos Santos, 64, mora no subdistrito rural de Joaquim Egídio, a 20 km do centro de Campinas (SP). Há seis anos, ele espera por uma cirurgia no ombro pelo SUS após romper um ligamento. “Não consigo levantar o braço, me sinto invalidado”, conta.

A escassez de profissionais fora das metrópoles aparece nos dados da pesquisa Demografia Médica no Brasil 2025: em 2024, as capitais tinham 6,97 médicos por mil habitantes, quase quatro vezes mais que o interior (1,9). A diferença é ainda maior quando se trata de especialistas.

Viagens de até 12 horas na Amazônia

No Amazonas, a aposentada Maria da Silva, 71, sai de Autazes rumo a Manaus para tratar um câncer de colo de útero. O trajeto, feito de barco ou carro, leva mais de 12 horas. Cada deslocamento pode custar R$ 400, valor alto para quem vive com um salário mínimo (R$ 1.621). “Às vezes deixo de comprar uma fruta para guardar dinheiro para ir ao médico”, diz. A falta de transporte ou de companhia já a fez perder consultas e sessões de quimioterapia.

Interior baiano e consultas na capital

Madalena Machado, 70, vive em Alto Bonito, distrito de Mundo Novo, a cerca de 300 km de Salvador. A cada seis meses, precisa ir à capital para passar por avaliação cardiológica. A viagem começa com 18 km por estrada de terra até a sede do município e, quando não consegue lugar no transporte público local, paga do próprio bolso. Na capital, desembolsa cerca de R$ 450 por consulta.

Fila urbana também emperra tratamento

Mesmo onde há maior oferta de serviços, a espera é longa. A paulistana Lurdes Santos, 75, aguarda há um ano por uma cirurgia de quadril no SUS. Professora aposentada, ela se locomove pela cidade usando ônibus, trem e metrô, mas relata dificuldades para subir no coletivo por causa dos degraus altos.

Profissionais concentrados e barreiras distintas

A médica de família Jéssica Leão, que atua em Alto Paraíso de Goiás e supervisiona o programa Mais Médicos, afirma que a falta de clínicos nas unidades básicas obriga pacientes a buscar cuidado fora de seus municípios. “Muitas vezes, o paciente precisa ir para outra cidade ou até outro estado para conseguir atendimento”, observa.

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Imagem: Internet

Na avaliação da socióloga Vania Beatriz Herédia, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), o formato do obstáculo varia conforme o território. “No interior, pesam distância e falta de profissionais; nas grandes cidades, a barreira é o tempo de espera”, resume.

Bem-estar e saúde mental

Embora o interior ofereça menor exposição a violência, trânsito e poluição, fatores vistos como positivos para a saúde mental, estudo baseado no ELSI-Brasil, analisado pela UFMG, indica que 34,1 % dos idosos em áreas urbanas apresentam sintomas depressivos — situação associada a barulho, insegurança e baixa coesão social.

Para especialistas, a qualidade de vida no campo não elimina a necessidade de políticas que aproximem serviços especializados da população idosa e reduzam as filas nos grandes centros.

Com informações de Folha de S.Paulo

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