Buenos Aires (Argentina) – Autoridades dos Estados Unidos pressionaram governos da Argentina e do Chile para interromper a instalação de dois grandes observatórios astronômicos financiados pela China na Cordilheira dos Andes, segundo documentos oficiais e relatos de diplomatas norte-americanos e sul-americanos.
Telescópio parado em San Juan
No observatório Cesco, em El Leoncito, província argentina de San Juan, um radiotelescópio de US$ 32 milhões permanece incompleto. Peças essenciais ficaram retidas na alfândega por cerca de nove meses, e a antena de grande porte, já montada, aponta para o céu sem operar. O equipamento, fruto de parceria iniciada há cerca de 15 anos entre a Universidade Nacional de San Juan e o Observatório Astronômico Nacional da China, seria o maior do tipo na América do Sul.
Um informe do chefe de gabinete da Casa Rosada atribuiu o bloqueio a “violações procedimentais” na renovação do acordo com Pequim. O governo argentino não confirmou se a medida atendeu a pedidos de Washington.
Preocupação militar dos EUA
Autoridades norte-americanas, atuais e antigas, afirmaram ter alertado Buenos Aires de que o telescópio poderia rastrear satélites dos EUA e servir de canal de comunicação para satélites chineses. A ofensiva diplomática começou em agosto de 2021, quando o conselheiro de Segurança Nacional Jake Sullivan e o assessor para a América Latina Juan Gonzalez levaram o tema ao então presidente Alberto Fernández. A pressão continuou e, em fevereiro de 2025, o secretário de Estado Marco Rubio voltou a tratar do assunto com o chanceler Gerardo Werthein.
Segundo esses relatos, especialistas do laboratório Sandia, no Novo México, viajaram a Buenos Aires para detalhar os riscos. Washington ainda incluiu, em um acordo comercial bilateral, cláusula que obriga a Argentina a adotar “controles suficientes” em instalações espaciais operadas por países terceiros.
Projeto suspenso no deserto do Atacama
No Chile, um outro observatório chinês planejado para o deserto do Atacama foi suspenso em 2025, após forte lobby da embaixada dos EUA em Santiago, conforme diplomatas chilenos.
Contexto regional
Os Estados Unidos declararam aplicar uma versão atualizada da doutrina Monroe para conter a expansão chinesa no Hemisfério Ocidental. Pequim, principal parceiro comercial de vários países latino-americanos, investe em infraestrutura, mineração, projetos científicos e bases de rastreamento espacial, como a estação de Neuquén (Argentina), inaugurada em 2015 com direito de uso por 50 anos.
Imagem: Internet
Na Argentina, a aproximação entre Washington e o presidente Javier Milei rendeu uma linha de crédito de US$ 20 bilhões antes das eleições legislativas de 2025. Durante a campanha, Milei criticou Pequim, mas reduziu o tom após a vitória, diante da forte integração econômica com a China.
Reação chinesa
Em nota, a embaixada chinesa em Buenos Aires declarou que os EUA “buscam pretextos para conter e reprimir a China” e classificou a postura de Washington como “ridícula e lamentável”. Representação semelhante no Chile acusou os EUA de “hegemonismo” ao barrar telescópios enquanto mantém instalações astronômicas próprias na região.
Enquanto diplomatas discutem, astrônomos argentinos lamentam o impasse. “Estamos presos em um buraco negro político”, disse Ana Maria Pacheco, 61, integrante da equipe do observatório Cesco.
Com informações de Folha de S.Paulo





