A arquiteta Laís Pironnet, 34, viveu um parto relâmpago no interior de São Paulo. Ao entrar em trabalho de parto do segundo filho, Miguel, ela imaginava ter várias horas pela frente, repetindo a experiência da primogênita Victoria, que levara 27 horas para nascer em Amsterdã. Quarenta minutos depois das primeiras contrações, porém, já apresentava 8 cm de dilatação. No trajeto de cerca de 15 minutos até o hospital, o bebê nasceu dentro do carro parado no acostamento.
Todo o processo, do início das contrações ao nascimento, durou aproximadamente 1 h 40. Miguel precisou ficar dois dias na UTI para acompanhamento respiratório, pois a expulsão ocorreu em apenas duas contrações e não houve tempo para a completa eliminação de líquido dos pulmões.
Parto taquitócico
Em obstetrícia, situações como a de Laís recebem o nome de parto taquitócico. A ginecologista Adriana Lippi Waissman, da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), explica que o fenômeno ocorre com mais frequência do que se imagina e resulta de uma combinação de reações bioquímicas que intensificam e coordenam rapidamente as contrações uterinas.
Não há método para prever quando o processo se dará dessa forma, segundo a médica. Entre fatores supostamente relacionados estão:
- estresse materno;
- excesso de líquido amniótico, gestações múltiplas ou bebês grandes, que deixam o útero mais distendido;
- descolamento prematuro de placenta;
- sofrimento fetal com eliminação de mecônio;
- infecção da cavidade amniótica;
- uso de medicamentos para indução do parto em doses elevadas.
Em muitos casos, contudo, a causa permanece desconhecida. A experiência prévia da mulher também faz diferença: “Em partos vaginais, o segundo costuma ser mais curto que o primeiro”, afirma Waissman. Dados citados pela especialista indicam que a fase ativa do primeiro parto dura, em média, seis horas; em gestações seguintes, cai para algo entre três horas e meia e quatro horas.
Reconhecendo o início do trabalho de parto
Identificar com precisão o momento de ir ao hospital não é simples, diz a obstetra. O processo começa na fase latente, quando as contrações são irregulares e menos dolorosas, podendo durar até oito horas. A fase ativa surge em seguida, marcada por contrações regulares e mais intensas. Se, ao longo de uma hora, a gestante notar endurecimento abdominal e pressão na região sacral a cada dez minutos, é recomendado procurar atendimento.
Cultura da cesariana
O episódio de Laís ocorre em um país com altos índices de cesárea. Dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) apontam que mais de 57 % dos partos no Brasil são cirúrgicos; na rede privada, a taxa supera 80 %. A Organização Mundial da Saúde sugere que esse percentual fique entre 10 % e 15 %.
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O Ministério da Saúde incentiva o parto normal porque a recuperação materna tende a ser mais rápida e os riscos de infecção e hemorragia são menores. Para o recém-nascido, a passagem pelo canal de parto auxilia na adaptação respiratória e favorece o contato pele a pele imediato. Ainda assim, Waissman ressalta que a cesariana é fundamental quando há condições que contraindicam o parto vaginal, como obstruções no canal de parto, cicatrizes uterinas de múltiplas cirurgias ou patologias maternas e fetais específicas.
Registro “em trânsito”
Ao registrar Miguel, o cartório sugeriu colocar o hospital como local de nascimento, mas o pai insistiu em manter a informação correta: “estrada”. O carro onde tudo ocorreu, de propriedade da avó, será guardado para o menino como lembrança.
Para Laís, que passou pela chamada “hora dourada” com o filho ainda no colo e a placenta sem ser desprendida até chegar ao hospital, a chegada inesperada foi motivo de alívio. “Eu sabia que o corpo estava preparado”, contou.
Com informações de Folha de S.Paulo





