Dois estudos divulgados na revista Science apontam que mamíferos podem manter capacidade de regeneração de membros, hoje inativa por influência do ambiente biológico. As análises foram acompanhadas por um artigo de perspectiva que reúne os resultados.
Rigidez tecidual define cicatriz ou novo tecido
No primeiro trabalho, cientistas investigaram a recuperação da ponta do dedo de camundongos. Eles constataram que feridas que cicatrizam apresentam matriz extracelular rígida, dominada por colágeno. Já regiões que se regeneram exibem estrutura mais flexível, rica em ácido hialurônico.
Quando os pesquisadores estabilizaram experimentalmente o ácido hialurônico no local da lesão, observaram queda na fibrose e estímulo à formação de novo tecido — inclusive em áreas que normalmente formariam cicatriz.
Oxigênio atua como interruptor biológico
O segundo estudo comparou brotos de membros de girinos de rã, criados em ambiente com pouco oxigênio, a tecidos mamíferos expostos a níveis normais de O2. Em condição de hipóxia, o fator HIF1A foi ativado, favorecendo proliferação e migração celular, além de liberar genes ligados à regeneração. A presença regular de oxigênio, típica dos mamíferos terrestres, bloqueou esses processos e ainda provocou alterações epigenéticas que silenciam genes regenerativos.
Em experimentos in vitro com extremidades embrionárias, foi possível acionar respostas iniciais de regeneração, embora a formação completa de um membro não tenha sido alcançada.
Imagem: Internet
Implicações para a medicina
Os autores sugerem que mamíferos não perderam totalmente os programas genéticos de regeneração; eles estariam suprimidos por fatores como rigidez tecidual, composição da matriz extracelular e níveis de oxigênio. A descoberta pode abrir caminho para terapias que controlem o ambiente da ferida, reduzindo cicatrização com fibrose e favorecendo a reconstrução de ossos ou outros tecidos.
Apesar dos avanços, os pesquisadores ressaltam que, por enquanto, os resultados se limitam a fases iniciais do processo regenerativo e a modelos em laboratório. Novos estudos serão necessários para transformar o achado em tratamentos clínicos.
Com informações de Folha de S.Paulo





