São Paulo – A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) colocou em operação, nesta segunda-feira (27), um novo centro de diagnóstico voltado a cânceres e doenças do sistema imunológico. A estrutura utiliza exames genéticos de última geração para atender exclusivamente pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), com a meta de reduzir o intervalo entre a suspeita clínica e a confirmação molecular da doença para até 24 horas.
Inicialmente, o serviço contemplará casos de câncer de mama, tireoide, pulmão, endométrio, colo do útero e colorretal em pacientes do Hospital São Paulo, hospital-escola da universidade. Em fase posterior, a cobertura deve se estender gradualmente a outras unidades públicas; tratativas estão em curso com a Prefeitura de São Paulo e o Ministério da Saúde para levar a tecnologia a hospitais de outras cidades e estados.
Foco na precisão e no tratamento disponível
Segundo a professora Soraya Smaili, coordenadora do projeto, os tumores selecionados contam com terapias já ofertadas pelo SUS. A identificação de mutações específicas orienta o uso de medicamentos alvo-dirigidos: KRAS ou NRAS no câncer colorretal metastático, EGFR no câncer de pulmão e HER2 no câncer de mama, por exemplo. “Não adianta realizar um exame que a rede pública não consiga transformar em tratamento”, explicou.
Investimento e capacidade
O laboratório recebeu aporte de R$ 10 milhões provenientes da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério da Saúde e da própria Unifesp. A estimativa é realizar centenas de análises por semana, número que poderá crescer conforme a demanda.
Tecnologias empregadas
Entre os principais recursos estão:
- PCR digital – Detecta mutações mínimas em DNA ou RNA, inclusive por biópsia líquida, com resultado no mesmo dia.
- Sequenciamento genético – Rastrea alterações mais amplas no genoma tumoral.
- Multiômica espacial – Equipamento capaz de mapear até 5.000 alvos genéticos em diferentes áreas de uma amostra de tecido; voltado principalmente à pesquisa clínica, leva até três dias para processar cada caso.
Os exames identificam biomarcadores como BRCA1 e BRCA2 (mama), EGFR (pulmão), KRAS (colorretal) e BRAF (pele), permitindo ao patologista emitir laudo conjunto com o biomédico ou farmacêutico responsável e encaminhar o resultado ao oncologista.
Imagem: Internet
Impacto para a rede pública
Para Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), análises genéticas já são parte essencial da oncologia moderna, mas ainda pouco acessíveis no SUS. Ela avalia que a combinação de rapidez e precisão pode antecipar o início do tratamento e melhorar o prognóstico dos pacientes.
O Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde analisa a incorporação do PCR digital ao SUS. Caso o parecer seja favorável, a proposta seguirá para avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec).
Além do atendimento clínico, o centro foi concebido para integrar pesquisa e prática assistencial: casos raros identificados nos exames podem ser estudados em profundidade, gerando conhecimento que retorna aos protocolos de diagnóstico e terapia.
Com informações de Folha de S.Paulo





