O Observatório Vera Rubin, em operação desde junho de 2025 no norte do Chile, pode encerrar uma década de disputa científica ao procurar sinais do chamado Planeta Nove, corpo celeste hipotético com cerca de dez vezes a massa da Terra.
Por que se acredita em um nono planeta
A hipótese ganhou força em 2016, quando os astrônomos Konstantin Batygin e Michael Brown, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), defenderam que um planeta distante seria a explicação para as órbitas inclinadas e alongadas de seis objetos transnetunianos (TNOs) localizados no Cinturão de Kuiper, além de Netuno.
Segundo os cálculos, o Planeta Nove orbitaria o Sol a uma distância média 20 vezes maior que a do oitavo planeta, podendo levar até 20 mil anos terrestres para completar uma volta. A órbita seria altamente elíptica e inclinada, o que, somado à fraca luminosidade refletida, dificulta a detecção direta.
Vera Rubin: varredura total do céu
Diferentemente de telescópios dedicados a alvos específicos, como o James Webb, o Vera Rubin registrará todo o céu do hemisfério sul a cada poucas noites. Munido da maior câmera digital já construída, o observatório pretende catalogar bilhões de objetos ao longo de uma missão de dez anos, entre eles mais de 40 mil novos TNOs.
“Se o Planeta Nove existir no tamanho e na posição previstos, o Rubin irá encontrá-lo”, afirma a astrônoma Sarah Greenstreet, integrante do projeto.
Descoberta poderia repetir feito de Netuno
Michael Brown, que há duas décadas participou da descoberta de Éris — fato que levou ao rebaixamento de Plutão em 2006 —, aposta que o novo telescópio apontará uma resposta dentro de um ou dois anos. “Seria o primeiro planeta descoberto em 180 anos e o quinto maior do Sistema Solar”, comenta, lembrando que Netuno foi oficialmente identificado em 1846 após cálculos baseados nas irregularidades na órbita de Urano.
Imagem: Internet
Dados antigos e ceticismo
A astrofísica Malena Rice, da Universidade Yale, considera possível que o Planeta Nove já tenha sido registrado em observações passadas, mas não reconhecido. Um estudo de 2025 liderado por cientistas de Taiwan, Japão e Austrália encontrou dois pontos fracos em levantamentos infravermelhos realizados em 1983 e 2006 que podem indicar um objeto em movimento no período de 23 anos; os autores, porém, classificam o achado apenas como “candidato potencial”.
Críticos da teoria citam desde possíveis erros estatísticos até explicações alternativas. Simulações conduzidas em 2025 pelo Forschungszentrum Jülich, na Alemanha, sugerem que a passagem de uma estrela massiva há bilhões de anos poderia ter distorcido as órbitas dos TNOs analisados. Além disso, a descoberta do TNO Ammonite, em 2023, cuja trajetória não segue o padrão dos seis objetos originais, reforçou o ceticismo.
Próximos passos
Mesmo que o Planeta Nove não apareça nas imagens do Vera Rubin, os pesquisadores esperam mapear regiões pouco exploradas do Sistema Solar externo. “Há uma vasta área a ser investigada; qualquer resposta trará novas perguntas”, conclui Greenstreet.
Com informações de Folha de S.Paulo





