Leitura profunda fortalece conexões cerebrais e sofre com excesso de telas, dizem pesquisadores

Neurocientistas e especialistas em literatura alertam que a prática da leitura profunda — processo em que o leitor faz inferências, associa ideias e envolve emoções — está ameaçada pelo hábito de consultar textos curtos e fragmentados em celulares e computadores. A avaliação parte de estudos conduzidos pela americana Maryanne Wolf, referência em neurobiologia da leitura, e de pesquisas coordenadas pela rede europeia E-READ.

Como o cérebro muda ao aprender a ler

Segundo Wolf, a alfabetização “literalmente muda o cérebro”. Ao decodificar símbolos visuais e verbais, o leitor cria novos circuitos que conectam áreas dedicadas à visão, linguagem, pensamento e emoção. Esse sistema, entretanto, não é inato: cada criança precisa construí-lo a partir do zero, diferentemente da fala, que emerge naturalmente em ambientes onde há conversação.

Benefícios comprovados

A leitura por prazer estimula criatividade, inteligência e empatia, afirma a escritora infantil Cressida Cowell. Estudos dos séculos 20 e 21 também relacionam o hábito a melhor pensamento analítico, maior habilidade para reconhecer padrões e redução de ansiedade — aspectos explorados pela biblioterapia, prática que prescreve obras de ficção para aliviar sintomas de depressão, estresse e outros transtornos.

Impacto das telas

Dados reunidos pela E-READ indicam queda no tempo dedicado a textos longos e aumento de uma leitura “intermitente e fragmentada”. A líder da iniciativa, Anne Mangen, chama o fenômeno de “inferioridade na tela”: conteúdos complexos têm menor compreensão quando lidos em dispositivos eletrônicos do que em papel.

Wolf acrescenta que o grande volume de informação digital estimula o hábito de “passar os olhos”, o que pode reduzir a capacidade de lidar com textos densos. Como o circuito leitor é plástico, ele tende a se adaptar ao meio predominante; sem treino, habilidades necessárias à leitura profunda podem se enfraquecer.

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Imagem: Internet

Alternativas e futuro

Autoras como Natalie A. Carter e Melissa Cummings-Quarry defendem a coexistência de formatos, lembrando que “o que importa é a história”. Para Wolf, a saída é desenvolver um cérebro “biletrado”, capaz de alternar entre a agilidade das telas e a concentração exigida pelos livros impressos.

A discussão, publicada originalmente em vídeo da BBC Ideas e The Open University, reforça que cultivar momentos de leitura sustentada continua essencial para preservar os benefícios cognitivos, emocionais e sociais conquistados ao longo de seis mil anos de história escrita.

Com informações de Folha de S.Paulo

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