Entre 1990 e 2011, 26.114 pacientes — 84% deles crianças — passaram por um programa de assistência médica organizado pelo governo cubano para vítimas do acidente nuclear de Tchernóbil, ocorrido em 26 de abril de 1986. Os atendimentos foram concentrados no balneário de Tarará, a cerca de 30 km a leste de Havana.
Estrutura preparada para longas estadias
O complexo de Tarará, construído nos anos 1950 como destino de veraneio da classe média alta e convertido em acampamento infantil após a Revolução Cubana, foi readaptado para o projeto batizado de “Crianças de Tchernóbil”. Ao longo de 21 anos, o local passou a reunir residências para pacientes e acompanhantes, dois hospitais, clínica, ambulâncias, cozinha, teatro, escolas, parques, áreas de lazer e acesso a uma praia de 2 km.
De acordo com o Ministério da Saúde de Cuba, a iniciativa começou em 29 de março de 1990 e foi encerrada em 24 de novembro de 2011, mesmo período em que a ilha enfrentou dificuldades econômicas provocadas pelo fim da União Soviética.
Perfis e tempo de permanência
Pacientes vindos principalmente de Ucrânia, Belarus e Rússia apresentavam doenças variadas, como câncer, paralisia cerebral, problemas dermatológicos, malformações, enfermidades digestivas e distúrbios psicológicos. A equipe liderada pelos médicos cubanos Julio Medina e Omar García dividia os atendidos em quatro grupos:
- Crianças com doenças onco-hematológicas graves, que permaneciam internadas por vários meses;
- Crianças hospitalizadas por patologias menos graves, com estadia aproximada de 60 dias;
- Crianças tratadas em regime ambulatorial, entre 45 e 60 dias;
- Crianças relativamente saudáveis, hospedadas pelo mesmo período de 45 a 60 dias.
Relatos de quem passou por Tarará
O ucraniano Roman Gerus, hoje com 27 anos, esteve três vezes no programa para tratar vitiligo: aos 12 anos (seis meses), 14 anos (três meses) e 15 anos (45 dias). Ele credita a recuperação sobretudo à exposição ao sol e às atividades no mar.
Já Khrystyna Kostenetska, que viajou entre 1991 e 1992, recorda ter ficado 40 dias em cada ocasião. Segundo ela, Tarará era dividida em duas áreas: uma para casos mais sérios, outra para crianças sem sintomas aparentes, mas expostas à radiação.
Imagem: Internet
Seleção pouco clara
A correspondente da BBC em Kiev, Diana Kuryshko, aponta que o processo de escolha dos participantes não era totalmente transparente, o que gerou dúvidas entre famílias atingidas pela catástrofe. Ainda assim, a percepção geral na Ucrânia e em outras ex-repúblicas soviéticas permanece positiva em relação à ajuda oferecida por Cuba.
Imagens da época mostram o então presidente cubano Fidel Castro recebendo um grupo de crianças de Belarus, em março de 1990, e o ex-presidente ucraniano Viktor Yanukovich visitando o programa anos depois.
Encerrado em 2011, o projeto cubano segue sendo lembrado por ex-participantes como uma das maiores ações internacionais de assistência às vítimas de Tchernóbil.
Com informações de Folha de S.Paulo





