Em 2011, uma moradora de Hong Kong identificada como Adeline afirmou ter recebido, em sonho, um alerta da mãe, morta três anos antes, para que procurasse um médico. O conselho onírico a levou a marcar um check-up e receber o diagnóstico de um câncer em estágio inicial, tratado com sucesso. “Sem esse sonho, eu não teria me apressado a fazer o exame”, disse ela.
O que acontece no cérebro enquanto dormimos
Segundo o neurocientista Abidemi Otaiku, do Imperial College de Londres, “praticamente sempre” sonhamos durante a fase de sono REM, que pode ocupar até um terço da noite. Quando há privação desse estágio, o cérebro compensa depois com imagens mais vívidas, fenômeno conhecido como “rebote do REM”. Nesse período, os lobos frontais — ligados ao raciocínio — ficam pouco ativos, enquanto o sistema límbico, associado às emoções, trabalha intensamente, o que tornaria os sonhos desconexos.
Influência sobre decisões
Estudos citados pelo psicólogo Dylan Selterman, dos Estados Unidos, indicam que o conteúdo onírico pode interferir no comportamento diurno. Ex-fumantes que sonharam estar fumando tiveram menor índice de recaída, e pessoas divorciadas que sonhavam com ex-cônjuges apresentaram melhor saúde mental um ano depois, independentemente de o sonho ter sido positivo ou negativo.
Em outro experimento, a Universidade de Harvard constatou que participantes que sonharam com um labirinto conseguiram resolvê-lo com mais facilidade posteriormente, sugerindo que o sono fornece tempo extra para processar problemas de forma criativa.
Premonição ou percepção interna?
Otaiku argumenta que aparentes “premonições” podem estar ligadas à interocepção — capacidade cerebral de captar sinais internos do corpo —, já que as áreas responsáveis por essa função se sobrepõem às que atuam na formação dos sonhos. Isso explicaria casos em que as imagens noturnas parecem antecipar doenças, como ocorreu com Adeline.
Pesadelos e doenças neurológicas
Pesquisas do mesmo neurocientista mostram correlação entre episódios frequentes de pesadelos e maior risco de demência ou doença de Parkinson. Três hipóteses são avaliadas: os pesadelos seriam um sintoma precoce, poderiam contribuir para o adoecimento ou ambos teriam origem comum, como fatores genéticos. Terapias de ensaio de imagens e o medicamento prazosina, usado para pressão arterial, vêm sendo testados para reduzir pesadelos.
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Interpretação deve considerar contexto
Para Selterman, buscar símbolos universais pode ser enganoso, pois o significado varia de pessoa para pessoa: “Um tubarão tem sentido diferente para um biólogo marinho e para um dentista”. O pesquisador recomenda observar padrões pessoais, já que os sonhos costumam refletir temas relevantes da vida social do sonhador.
Após a experiência que a levou ao diagnóstico precoce, Adeline diz prestar mais atenção ao que sonha. “Uso como lembrete para me conectar com meus sentimentos”, afirma.
Com informações de Folha de S.Paulo





