Quarenta anos depois da explosão do reator 4 de Tchernóbil, a Ucrânia relembra neste domingo (26) a maior catástrofe nuclear civil da história enquanto a área segue sob risco de ataques russos. Entre os primeiros profissionais de saúde mobilizados em 1986 estava o radiologista ucraniano Leonid Kindzelski, cujo trabalho contrariou diretrizes oficiais e garantiu a sobrevivência de quase todos os pacientes que tratou.
Primeiros momentos após o desastre
Na madrugada de 26 de abril de 1986, Kindzelski foi retirado de casa por agentes do Estado sem explicações. Somente no dia seguinte, por telefone, orientou a família a ingerir iodo diluído em leite para reduzir a absorção de radiação. Seu filho, Andrei Kindzelski, então no quinto ano de medicina, também foi enviado à zona contaminada diante da ameaça de não concluir o curso caso se recusasse.
Pacientes “ilegais” em Kiev
Moscou anunciou que todos os feridos estavam internados no Hospital nº 6, na capital russa. Metade deles, porém, ficou no hospital de Kiev onde Kindzelski trabalhava, passando a existir, na prática, sem registro oficial. O médico foi proibido de anotar diagnósticos de síndrome aguda de radiação e de realizar transplantes completos de medula óssea.
Estratégia própria de tratamento
Contrariando protocolos baseados em imunossupressão intensa e transplante total, Kindzelski defendia enxertos parciais de medula. A técnica deveria sustentar o organismo até a recuperação funcional da medula original, permitindo a rejeição controlada do tecido doador. Dos 35 pacientes submetidos ao procedimento, 34 sobreviveram; a única morte envolveu dose de radiação múltiplas vezes superior ao limite letal.
O médico também introduziu métodos de desintoxicação, como hemossorção e enterossorção, para remover radionuclídeos e metais pesados. O próprio Andrei passou pelos processos após se contaminar durante a missão.
Pressão da KGB e isolamento
Sob vigilância constante, Kindzelski perdeu cargos administrativos, teve prontuários ocultados e viveu sob risco de prisão. Recusou-se a minimizar publicamente a gravidade do acidente, o que intensificou seu isolamento no sistema soviético.
Imagem: Internet
Reconhecimento póstumo
Após anos mapeando níveis de radiação em um raio de 30 km da usina, Kindzelski desenvolveu câncer e morreu em 1999 sem honrarias oficiais. Em 2021, recebeu postumamente o título de “Herói da Ucrânia”. Durante cerimônia na embaixada ucraniana em Washington, em 2022, Andrei Kindzelski disse que o prêmio preserva a memória de quem “nunca acreditou ter agido errado”.
Hoje, a trajetória do médico é reconstituída pelo filho enquanto o país, ainda em guerra, segue homenageando quem esteve na linha de frente do pior desastre nuclear civil do mundo.
Com informações de Folha de S.Paulo





