Médicos e especialistas em nutrição estão usando as próprias redes sociais para contestar o avanço de influenciadores que indicam métodos extremos — como “quebrar ossos” do rosto — para aumentar a atratividade masculina. A reação ocorre após pesquisa da organização Movember apontar que quase dois terços dos homens de 16 a 25 anos no Reino Unido, Estados Unidos e Austrália consomem regularmente esse tipo de conteúdo.
‘Looksmaxxing’ vira fenômeno
Nos perfis dedicados à chamada “maximização da aparência”, rostos angulados e músculos definidos são tratados como padrão único. Expressões internas, como “mogging” (ser mais bonito que o outro) e “ascender” (tornar-se mais atraente), circulam entre seguidores.
O principal nome desse segmento é Braden Peters, 20, que usa o apelido “Clavicular”. Ele reúne cerca de 500 mil seguidores no Instagram e quase 900 mil no TikTok. Peters defende o “bone smashing” — batidas repetidas nos ossos da face —, admite ter usado metanfetamina para perder gordura e esteroides para ganhar massa muscular. Em abril, desmaiou durante uma live em Miami e, já no hospital, queixou-se no X (antigo Twitter) de que a máscara teria deixado seu rosto “menos atraente”.
Busca de jovens dispara
Embora o termo “bone smashing” seja proibido no TikTok, dados da plataforma mostram que homens de 18 a 24 anos fizeram mais de 300 mil pesquisas diárias sobre truques de looksmaxxing em fevereiro, com pico de 1,9 milhão no fim de março. O médico escocês Michael Mrozinski, que trabalhou 15 anos na medicina esportiva, alerta que a prática pode causar sangramentos, hematomas e danos em tecidos moles. Para ele, o movimento “virou um monstro com braços e pernas”.
Mrozinski mantém 180 mil seguidores e afirma que alguns garotos que entram em contato ainda nem passaram pela puberdade.
‘Excesso dos influenciadores’
Nutricionista e criador de conteúdo, James Brash diz apoiar exercícios e alimentação equilibrada, mas vê “excesso” quando celebridades digitais divulgam conselhos sem sustentação científica. Ele costuma publicar vídeos rebatendo mitos, como a ideia de que homens antigos eram naturalmente mais férteis por terem níveis muito maiores de testosterona.
Imagem: Internet
Saúde antes da aparência
Em posição diferente dos looksmaxxers, o influenciador Steven Abelman se define como “healthmaxxer”. Seu canal incentiva dieta rigorosa, rotina de sono fixa e treinos regulares para, segundo ele, “fortalecer” homens que estariam sendo enfraquecidos por tecnologia e jogos. “Quero promover estilos de vida mais primais”, afirma.
Masculinidades plurais
Fora do circuito fitness, Ben Hurst, da organização britânica Beyond Equality, visita escolas para discutir novos modelos de masculinidade. Ele defende ocupar a internet com exemplos que incluam cuidado, gentileza e cooperação. Hurst cita o educador físico Rory Bradshaw, que leva ioga a presídios masculinos, como amostra de conteúdos focados em comunidade, e não em perfeição individual.
Para os especialistas, o desafio é tornar informações embasadas tão atraentes quanto promessas rápidas de transformação física que hoje dominam a atenção de milhões de jovens.
Com informações de Folha de S.Paulo





