Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, o professor Bruno Gualano, do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP e autor de “Bel, a Experimentadora”, retoma a discussão sobre o que pode ou não ser considerado ciência.
Gualano menciona o filósofo austríaco Paul Feyerabend, cuja tese central defende que não existe um critério universal capaz de reger o desenvolvimento científico. Segundo Feyerabend, muitos dos grandes avanços da área ocorreram justamente quando pesquisadores violaram regras metodológicas então aceitas, motivo pelo qual o pensador cunhou a expressão “vale tudo” (“anything goes”) na ciência.
O colunista cita exemplos históricos apresentados por Feyerabend para ilustrar sua posição: o heliocentrismo de Galileu, que só ganhou sustentação plena décadas depois, com a mecânica de Newton, e a teoria da evolução de Darwin, que permaneceu sem um mecanismo hereditário consistente até a redescoberta das leis de Mendel, no início do século XX. Para o filósofo, a força de uma teoria se comprovaria mais pelos resultados históricos do que pela adesão estrita a manuais metodológicos.
Gualano também relaciona o pensamento de Feyerabend a pesquisas contemporâneas, como a que envolve a polilaminina, argumentando que tais programas costumam ser avaliados pelo “veredito lento da história”. Ao mesmo tempo, o professor pondera que o pluralismo defendido pelo austríaco, embora contribua para conter a soberba do chamado “cientificismo”, pode abrir espaço a práticas sem respaldo empírico, caso a homeopatia e a astrologia sejam equiparadas a teorias consolidadas.
Para contrabalançar essa visão, Gualano menciona o filósofo italiano Massimo Pigliucci, que vê risco em confundir o exame público da ciência com a “democratização da expertise”. Pigliucci argumenta que sociedades complexas dependem de trabalho especializado e que decisões técnicas — como cirurgias cerebrais ou projetos de pontes — não podem ser tomadas por assembleia geral.
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Ao final, o colunista sustenta que, apesar de falível, a ciência permanece a melhor ferramenta disponível para compreender a realidade. Ele defende, contudo, que a atividade científica seja submetida a vigilância ética, responsabilidade pública e constante humildade epistemológica, pontos em que reconhece alguma convergência com o pensamento de Feyerabend.
Com informações de Folha de S.Paulo





