São Paulo – Atualmente proibidos no Brasil, os sachês de nicotina ganharam espaço em redes sociais, grupos de WhatsApp e no comércio informal e, agora, entraram no radar da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O órgão prepara análise para decidir se mantém o veto ou se cria regras para a venda desses produtos no país.
Conhecidos internacionalmente como “pouches” ou “snus”, os pequenos envelopes são acomodados entre a gengiva e o lábio e chegam ao consumidor em latas coloridas, com aromas adocicados e sabores frutados. A indústria os apresenta como alternativa “sem fumaça” para quem quer abandonar o cigarro convencional.
Riscos apontados em revisão de estudos
Uma síntese científica elaborada pela organização ACT Promoção da Saúde, com apoio da Bloomberg Philanthropies, reúne indícios de que as grandes fabricantes de tabaco ampliam o portfólio com sachês de nicotina e cigarros eletrônicos para atrair jovens. O documento associa o uso dos pouches a dependência química e a maior incidência de câncer de boca, esôfago, estômago, pâncreas e reto, além de aumento na mortalidade por doenças cardiovasculares.
Esses produtos começaram a chegar a diversos mercados entre 2018 e 2020 e são classificados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como emergentes, exigindo novos mecanismos de controle. No exterior, a resposta regulatória varia entre proibição, regras específicas ou ausência de legislação, sobretudo quando há lacunas sobre nicotina sintética.
Situação nos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, os sachês foram liberados em janeiro de 2025, mas a Food and Drug Administration (FDA) suspendeu novas autorizações diante de possíveis riscos a jovens e crianças. Trata-se da categoria de produto derivado do tabaco que mais cresce no mercado norte-americano.
Alerta de especialistas
“É um produto que já nasce com alto potencial de gerar dependência”, afirma a pneumologista Stella Regina Martins, do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, autora do relatório brasileiro. Segundo ela, análises apontam concentrações de nicotina que chegam a 120 mg por sachê, além de aditivos que aceleram a absorção da substância.
A médica questiona o discurso de redução de danos: “Trocar o cigarro por algo que também contém substâncias cancerígenas não se sustenta do ponto de vista individual nem coletivo”. Ela cita ainda 4.200 casos de intoxicação infantil por nicotina oral registrados em 2025 em países onde o produto circula, 72% envolvendo crianças de até 5 anos.
Preocupação com o público jovem
O estudo ressalta o apelo entre adolescentes e o “poliuso” de produtos – cigarros tradicionais, eletrônicos, tabaco aquecido e agora a nicotina oral. As embalagens, semelhantes a balas e com odor adocicado, aumentam o risco de ingestão acidental por crianças.
Além dos sachês, a pesquisa menciona balas, tiras dissolvíveis e bastões de nicotina que podem ganhar mercado se o Brasil flexibilizar as regras.
Imagem: Internet
Referências internacionais e embate global
Defensores dos pouches citam a Suécia, onde o consumo de snus por cerca de 1 em cada 7 habitantes teria reduzido o número de fumantes de 15% para 5% em 20 anos. Pesquisadores, porém, afirmam que a dependência global de nicotina no país permanece elevada quando se somam todas as formas de uso.
A OMS recomenda que sachês, cigarros eletrônicos e tabaco aquecido recebam o mesmo rigor regulatório dos cigarros combustíveis. Já a indústria, representada por executivos como Jacek Olczak, da Philip Morris International, argumenta que produtos sem fumaça diminuem a exposição a substâncias tóxicas; a empresa diz que 40% de sua receita já vem dessas categorias.
Cenário brasileiro
No Brasil, após anos de queda, a prevalência de fumantes subiu de 9,3% para 11,6%, segundo o Ministério da Saúde. O tabagismo gera custo anual estimado em R$ 153,5 bilhões entre despesas médicas e perda de produtividade.
Para Stella Regina Martins, liberar fabricação, importação, distribuição ou propaganda de sachês de nicotina pode comprometer conquistas do Programa Nacional de Controle do Tabagismo, aumentar a exposição de jovens e elevar o impacto de doenças ligadas à nicotina. “Já enfrentamos dificuldades para coibir o contrabando de cigarros e vapes; incluir um item ainda mais discreto tende a dificultar a fiscalização”, alerta.
A Anvisa, procurada desde segunda-feira (27), não se manifestou sobre o cronograma de análise do tema.
Com informações de Folha de S.Paulo





