DNA revela invasão lenta e miscigenação nas fronteiras do Império Romano após 476 d.C.

São Carlos (SP) – Um levantamento genômico conduzido por pesquisadores europeus indica que a queda do Império Romano do Ocidente foi marcada por infiltração gradual de grupos “bárbaros” e rápida miscigenação com a população local. O estudo, liderado por Joachim Burger, da Universidade Johannes Gutenberg (Mainz, Alemanha), analisou o DNA de 221 indivíduos que viveram entre os séculos V e VII d.C. em regiões que faziam parte das províncias romanas da Germânia Superior e da Récia.

Quem participou do estudo

Os cientistas sequenciaram material genético de ossadas provenientes de sítios arqueológicos localizados ao longo dos rios Reno e Danúbio, áreas conhecidas na época como Limes, linha fortificada que delimitava o mundo romano. As amostras foram comparadas a dados genéticos de populações anteriores e posteriores ao domínio romano em diferentes pontos da Europa e do Oriente Próximo.

Principais descobertas

No período entre 400 e 470 d.C., muitos indivíduos enterrados em Altheim (Baviera) já apresentavam ancestralidade típica do norte da Europa — similar à de populações atuais da Alemanha setentrional, Dinamarca e Holanda — mesmo estando do lado romano da fronteira. Vários desses mortos eram camponeses sem sinais de alto status, contrariando a imagem de conquistadores recém-chegados.

Segundo os autores, essas pessoas provavelmente descendiam de soldados ou escravos germânicos assentados pelo próprio Império antes do colapso. Análises químicas dos ossos indicam que cresceram na região, reforçando a hipótese de permanência de longa data.

Outros esqueletos exibiam origens diversas, ligadas ao norte da Itália, Bálcãs e Mediterrâneo oriental, reflexo do caráter multiétnico do exército romano.

Miscigenação acelerada

Entre 470 e 620 d.C., mesmo aldeamentos formados quase exclusivamente por indivíduos do norte europeu passaram a abrigar pessoas com ancestrais de várias partes do antigo Império. A equipe sugere que o colapso das estruturas fronteiriças afrouxou barreiras econômicas e possibilitou maior mobilidade de ex-escravos e camponeses, resultando em ampla mistura genética.

DNA revela invasão lenta e miscigenação nas fronteiras do Império Romano após 476 d.C. - Imagem do artigo original

Imagem: Internet

O cruzamento desses grupos, ao longo de cerca de um século, produziu um perfil genético semelhante ao encontrado hoje no sul da Alemanha e na Áustria. O trabalho também identificou laços familiares entre diferentes gerações, indicando núcleos monogâmicos e raras uniões consanguíneas, padrão que pode estar relacionado à expansão do cristianismo.

O artigo com os resultados foi publicado na última quarta-feira (29) na revista Nature.

Com informações de Folha de S.Paulo

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