A escritora infantil britânica Sally Gardner, 64, afirma ter perdido cerca de 500 mil libras esterlinas (aproximadamente R$ 3,4 milhões) após desenvolver um vício em compras que, segundo ela, foi provocado por um medicamento agonista de dopamina prescrito para tratar a síndrome das pernas inquietas.
Do sucesso literário às dívidas
Na década de 2000, quando tinha pouco mais de 40 anos, Gardner lançou seu primeiro livro e alcançou vendas de 2,5 milhões de exemplares, além de prêmios como a Medalha Carnegie. O aumento da renda foi acompanhado por gastos considerados extravagantes: uma banheira de £3 mil, obras do artista Peter Blake e viagens a boutiques em Paris.
O comportamento, que incluiu a compra de um mesmo par de sapatos cinco vezes e dez camas para seu cão Yorkshire Terrier, levou a autora a contrair dívidas significativas. Para quitá-las, ela vendeu a casa no norte de Londres e se mudou para um apartamento menor, que também acabou decorado por um designer a custo elevado.
Ligação com o medicamento
Gardner começou a usar o remédio logo após o diagnóstico de síndrome das pernas inquietas, condição que se intensificou no período de menopausa e insônia crônica. Ela conta que não foi alertada sobre possíveis efeitos psiquiátricos e que só relacionou a compulsão ao tratamento duas décadas depois, ao ouvir o podcast “Impulsive”, da BBC, em fevereiro de 2026.
“Como não percebi antes?”, declarou à BBC. A escritora disse sentir alívio por encontrar uma explicação, mas também revolta por ter a vida “sequestrada” durante anos.
Casos semelhantes em investigação
Nos últimos 18 meses, a BBC reuniu centenas de relatos de pacientes que atribuíram dívidas, rupturas familiares, envolvimento em crimes e até suicídios a agonistas de dopamina usados contra Parkinson, tumores da glândula pituitária e distúrbios de saúde mental.
Pessoas ouvidas mencionaram compras desenfreadas, jogos de azar e impulsos sexuais compulsivos. A neuropsiquiatra Valerie Voon, da Universidade de Cambridge, afirma que a compra on-line pode mascarar o problema, já que “não há o mesmo estigma nem impacto social imediato”.
Imagem: Internet
Resposta das autoridades
A Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA) informou que está revisando os alertas sobre comportamentos impulsivos associados à classe de drogas. O órgão lembrou que “nenhum medicamento é isento de riscos”, mas ressaltou os benefícios clínicos já comprovados.
Fabricantes dizem que as advertências constam nas bulas e que os produtos foram aprovados por reguladores internacionais após extensos testes. O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS) orienta pacientes que utilizam esses remédios a consultarem um médico diante de qualquer preocupação.
Tratamento continua
Depois de identificar a relação entre a droga e a compulsão, Gardner reduziu a dose, porém não suspendeu o uso, alegando que o fármaco é o único eficaz para seus sintomas. “Todos os dias preciso me perguntar se cada compra é realmente necessária”, disse.
Com informações de Folha de S.Paulo





