Pesquisadores da América Latina, Europa e Estados Unidos se encontraram nesta quarta-feira (6), em São Paulo, para o seminário “Vozes da Ciência Latino-Americana”, organizado pelo Hospital Israelita Albert Einstein. O encontro buscou traçar caminhos para fortalecer a produção científica regional e ampliar a cooperação em medicina.
Condições singulares e “descolonização” do conhecimento
Na primeira mesa, o imunologista francês Patrice Debré, da Sorbonne, destacou que a região possui biodiversidade única e instituições robustas — como Fiocruz, Opas e SUS —, o que exige “descolonizar” a ciência para colocar a América Latina em pé de igualdade no cenário global.
Cristian Morales, da Organização Pan-Americana da Saúde, defendeu mudanças estruturais na definição e no financiamento de prioridades científicas, permitindo parcerias internacionais mais equilibradas. O sociólogo Pablo Kreimer, do Conicet argentino, alertou para a “integração subordinada”, em que grupos latino-americanos ficam restritos à coleta e ao processamento de dados, sem avançar em inovação conceitual.
Para o diretor de Cardiologia do Einstein, Pedro Alves Lemos Neto, a associação entre redes globais e iniciativa privada pode criar um ciclo virtuoso ainda pouco explorado na região. “As agendas são mundiais, mas, para nós, são importadas”, afirmou, defendendo participação ativa com apoio da indústria local.
Carreiras afetadas por fragilidade institucional
A segunda mesa abordou os impactos da falta de políticas científicas consistentes na trajetória de pesquisadores. Juliana Cassataro, do Conicet e da Universidade Nacional de San Martín, que liderou o desenvolvimento da vacina argentina contra a Covid-19, afirmou que sem instituições sólidas não há condições para construir carreiras na pesquisa.
O geneticista Vinícius Maracajá-Coutinho, da Fiocruz Bahia e da Universidade do Chile, resumiu: “Precisamos deixar de ser provedores de amostra para nos tornarmos produtores de dados”. Segundo ele, a colaboração intra-latino-americana permanece mínima, enquanto Europa e EUA seguem como foco principal.
Desigualdade de infraestrutura e necessidade de integração
Professor da Escola Médica de Harvard, o cardiologista Peter Libby elogiou a qualificação dos cientistas brasileiros, mas criticou a concentração de infraestrutura em São Paulo, responsável por mais de 40% da produção científica nacional. Já o diretor do Centro de Pesquisa em Imuno-oncologia, Kenneth Gollob, pediu maior articulação entre países latino-americanos para enfrentar desafios comuns.
Imagem: Internet
Einstein quer rede continental de cooperação
Na abertura, o vice-presidente de Pesquisa e Inovação do Einstein, Fernando Bacal, defendeu alinhar a agenda científica continental às necessidades dos pacientes e do sistema público de saúde. Ele citou estudo coordenado pelo hospital sobre uso de aspirina após angioplastia, vinculado ao Proadi-SUS, que influenciou recomendações internacionais.
A palestra inicial foi feita por Marcella Ohira, do Inter-American Institute for Global Change Research (IAI), que ressaltou a diplomacia científica como ferramenta para transformar conhecimento em políticas públicas efetivas.
Além dos debates centrais, o seminário discutiu governança regulatória, ambientes de pesquisa, modelos de financiamento e formas de reduzir disparidades entre centros latino-americanos e instituições de ponta no exterior. O evento foi realizado no auditório do Centro de Ensino e Pesquisa Albert Einstein e pretende servir de base para uma rede regional de colaboração em medicina, com o Einstein como articulador principal.
Com informações de Folha de S.Paulo





