Duas grandes revisões científicas divulgadas no início de 2026 sugerem que a prática regular de atividade física pode reduzir sintomas de depressão e ansiedade em nível semelhante ao obtido com antidepressivos ou psicoterapia.
O que dizem os estudos
A primeira pesquisa, publicada em janeiro, foi conduzida por especialistas do Reino Unido e da Irlanda no formato de revisão Cochrane, considerada padrão-ouro para avaliações em saúde. O trabalho analisou 69 ensaios clínicos randomizados que investigaram o impacto do exercício sobre a depressão.
Já o segundo levantamento, divulgado em fevereiro no British Journal of Sports Medicine, reuniu dados de mais de mil ensaios envolvendo cerca de 80 mil participantes. Essa “meta-meta-análise” avaliou resultados de estudos sobre exercícios físicos e concluiu que a prática auxilia tanto na depressão quanto na ansiedade, apresentando efeito comparável ao de tratamentos convencionais.
Limitações apontadas
Apesar dos resultados promissores, os autores destacam limitações importantes. Todos os estudos incluídos na revisão Cochrane foram classificados como de “alto risco” de viés, principalmente porque não há como aplicar placebo em intervenções de exercício — os participantes sabem que estão se movimentando, o que pode influenciar a percepção do humor.
A meta-meta-análise, por sua vez, não comparou exercício diretamente com outras abordagens; os dados de atividades físicas foram cotejados com achados de pesquisas separadas sobre medicamentos ou terapia. Como ensaios com antidepressivos costumam registrar forte efeito placebo, a equivalência entre diferentes conjuntos de estudos é considerada problemática por alguns especialistas. “Não acho que seja uma comparação justa”, afirmou Jonathan Roiser, professor de neurociência da University College London.
Tipos de atividade e possíveis mecanismos
Apesar das ressalvas metodológicas, a maioria dos pesquisadores concorda que movimentar o corpo traz benefícios psicológicos. Exercícios aeróbicos — como corrida, caminhada e ciclismo — aparecem entre os mais eficazes. No caso da depressão, práticas em grupo ou com supervisão profissional tendem a ter melhor desempenho, e os efeitos positivos se acumulam após alguns meses. Para ansiedade, atividades de menor intensidade parecem oferecer os melhores resultados.
Imagem: Internet
Ainda não há consenso sobre como o exercício melhora o humor. Estudos recentes sugerem participação dos endocanabinoides, substâncias produzidas pelo organismo que ativam os mesmos receptores da cannabis. Outros caminhos em investigação incluem redução de processos inflamatórios, aumento da plasticidade cerebral e maior liberação de dopamina — neurotransmissor associado à motivação. Além dos fatores biológicos, especialistas lembram que metas alcançadas durante o treino podem gerar sensação de autonomia e conquista, reforçando o bem-estar.
Com essas evidências, pesquisadores defendem que a prescrição de atividade física passe a ocupar espaço cada vez maior nas estratégias de cuidado à saúde mental.
Com informações de Folha de S.Paulo





