Um estudo divulgado na terça-feira (5) pela revista Nature Communications identificou um número incomum de cópias do gene AMY1 – responsável pela produção da enzima amilase, que quebra o amido na saliva – entre descendentes de falantes de quéchua nos Andes peruanos. Em média, esses indivíduos possuem dez cópias do gene, de duas a quatro a mais do que a maior parte da população mundial.
Segundo os autores, trata-se do primeiro registro de tamanha amplificação do AMY1 em uma população humana. A alteração teria começado há 6 000 a 10 000 anos, período em que os antepassados dos atuais andinos domesticaram a batata e a transformaram na base de sua alimentação.
Pesquisa abrange 85 grupos ao redor do mundo
A equipe analisou dados genômicos de mais de 3 700 pessoas pertencentes a 85 populações da América, Europa, África e Ásia. O grupo sul-americano foi representado por 81 participantes de ascendência andina que falam quéchua.
Para o geneticista Omer Gokcumen, da Universidade de Buffalo (EUA), um dos autores do trabalho, o achado “é um exemplo de como a cultura pode moldar a biologia”. Abigail Bigham, geneticista da Universidade da Califórnia em Los Angeles, acrescenta que a descoberta reforça o papel da alimentação na evolução humana.
Vantagem metabólica
Quanto mais cópias do AMY1, maior a quantidade de amilase produzida na boca. Os pesquisadores sugerem que essa característica ofereceu vantagem aos indivíduos que consumiam grandes quantidades de batata, tubérculo rico em amido e adaptado às altas altitudes andinas. Ao longo das gerações, essas pessoas teriam deixado mais descendentes, disseminando a variação genética.
“Quem nasceu com mais cópias do AMY1 provavelmente metabolizava melhor alimentos ricos em amido, como a batata”, explicou Luane Landau, doutoranda da Universidade de Buffalo e coautora do estudo.
Imagem: Internet
Batata: pilar alimentar e diversidade ainda pouco conhecida
Fonte principal de calorias no Império Inca, o tubérculo segue presente nos mercados andinos, onde podem ser encontradas polpas roxas, azuis, vermelhas, douradas, brancas e até pretas. No Peru, há de 3 000 a 4 000 variedades registradas, mas apenas algumas são amplamente consumidas no restante do mundo.
A disseminação global da batata começou após a conquista espanhola do território inca, lembram os cientistas. “O sucesso culinário internacional do tubérculo mostra sua ampla aceitação”, observou Bigham.
Além de ilustrar a relação entre dieta e genética – como já ocorre com a tolerância à lactose em populações que consomem leite –, o trabalho ajuda a compreender o impacto de eventos de domesticação na saúde humana.
Com informações de Folha de S.Paulo





