Estudo britânico aponta crescimento de câncer em adultos de 20 a 49 anos e acende alerta no Brasil

Um levantamento realizado na Inglaterra entre 2001 e 2019 identificou aumento anual de 1% a 3% na incidência de 11 tipos de câncer em adultos de 20 a 49 anos. Os resultados, divulgados em abril na revista BMJ Oncology, indicam que o maior índice de massa corporal (IMC) explica parte desse avanço, enquanto outros fatores de risco tradicionais — tabagismo, álcool, dieta e sedentarismo — não apresentaram correlação consistente.

Detalhes do estudo

Baseado nos registros do sistema público britânico (NHS), o trabalho avaliou 2,6 milhões de diagnósticos e verificou alta nos tumores de cólon e reto, mama, endométrio, fígado, rim, pâncreas, cavidade oral, tireoide, mieloma múltiplo, vesícula biliar e ovário. O câncer colorretal foi o que mais destoou: a incidência subiu entre jovens, mas não nos mais velhos.

Durante o período analisado, hábitos como tabagismo, sedentarismo e consumo de carne vermelha diminuíram ou ficaram estáveis, enquanto a obesidade cresceu de forma contínua. No Reino Unido, 66% dos adultos estavam com sobrepeso ou obesidade em 2024, segundo a Health Survey for England.

Reflexos no Brasil

No país, oncologistas relatam percepção semelhante. “Temos visto pacientes cada vez mais jovens chegarem aos consultórios”, afirma Raphael Brandão, chefe de oncologia da Rede São Camilo de São Paulo. Carlos Gil Ferreira, diretor médico da Oncoclínicas, acrescenta que a tendência reforça a necessidade de atenção específica à população AYA (adolescentes e adultos jovens).

O Brasil não dispõe de um sistema de registros tão abrangente quanto o britânico, o que dificulta comparações diretas. Mesmo assim, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) projeta cerca de 704 mil novos casos anuais no triênio 2023-2025, número que pode alcançar 781 mil entre 2026-2028. O órgão ressalta o avanço dos tumores de cólon e reto, presentes entre os mais incidentes em ambos os sexos.

Além disso, 60% da população brasileira vive com excesso de peso, de acordo com o Vigitel 2026. Para Ferreira, o quadro combina obesidade, alimentação baseada em ultraprocessados e sedentarismo intensificado no pós-pandemia, fatores que potencializam o risco oncológico.

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Imagem: Internet

Implicações para prevenção e rastreamento

Protocolos atuais de rastreamento, voltados sobretudo a pessoas acima de 50 anos — caso do exame para câncer colorretal oferecido no SUS —, podem precisar de revisão caso o aumento entre jovens se confirme. “Quando diagnosticamos um paciente mais novo, o potencial de anos de vida ganhos é maior, o que muda a análise de custo-efetividade”, observa Ferreira.

Os especialistas alertam, porém, que o estudo britânico é observacional e não estabelece causalidade. Ainda assim, reforça a importância de aperfeiçoar bancos de dados nacionais, adotar políticas de prevenção focadas em estilo de vida saudável e ampliar a vigilância em faixas etárias antes consideradas de baixo risco.

Com informações de Folha de S.Paulo

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