Pesquisas de grande escala estão reformulando o entendimento sobre quanto dos nossos traços de personalidade já vem “pré-programado” no DNA e quanto se deve ao ambiente, revelando um cenário bem mais complexo que as antigas teorias apoiadas em poucos genes isolados.
Do “gene do guerreiro” às análises genômicas maciças
Em 2009, o argelino Abdelmalek Bayout conseguiu reduzir em um ano sua pena de nove anos de prisão em Trieste, na Itália, após a defesa alegar que ele trazia no DNA a variante MAOA, apelidada de “gene do guerreiro”. A mutação, estudada desde a década de 1990, foi associada a maior propensão a comportamentos agressivos.
Hoje, cientistas rejeitam a ideia de que poucos genes determinem traços complexos. “No início se imaginava que comportamentos vinham de um punhado de genes com efeito grande; isso caiu por terra”, resume Aysu Okbay, professora de psiquiatria e genética de características complexas do Amsterdam UMC (Holanda).
O que dizem estudos com gêmeos
Desde os anos 1920, comparar gêmeos idênticos (que compartilham todo o DNA) com fraternos (50%) é a principal estratégia para estimar herdabilidade. Uma meta-análise de 2015, reunindo mais de 2.500 trabalhos publicados entre 1958 e 2012, concluiu que 47% das variações em 568 características de temperamento ou personalidade podem ser atribuídas a fatores genéticos. Em geral, estudos desse tipo apontam que 40% a 50% das diferenças nos chamados “big five” – abertura, conscienciosidade, extroversão, amabilidade e neuroticismo – são herdáveis.
A lacuna da “herdabilidade ausente”
Com o barateamento do sequenciamento, cresceram os estudos de associação genômica ampla (GWAS), que varrem milhões de pontos do DNA em centenas de milhares de pessoas. Mesmo assim, as variantes ligadas aos cinco grandes traços explicam apenas 9% a 18% da herdabilidade, bem abaixo do estimado com gêmeos. Para Okbay, a resposta “provavelmente fica entre esses dois números”, e amostras ainda maiores podem revelar novos efeitos genéticos.
Papel limitado de eventos isolados
A influência do ambiente também parece fragmentada. Pesquisas mostram que acontecimentos marcantes na vida adulta – como casamento, ter filhos, ganhar na loteria ou sofrer um acidente – alteram a personalidade de modo sutil. Já traumas na infância ou estresse materno durante a gestação podem deixar marcas mais duradouras; um estudo de 2022 detectou mais sinais de medo e tristeza em bebês de três meses cujas mães tiveram flutuações acentuadas de estresse na gravidez.
Interação entre genes e contexto
Para a pesquisadora Jana Instinske, da Universidade de Bielefeld (Alemanha), predisposição genética não é sentença definitiva: “O ambiente pode ativar ou silenciar certas tendências”. O psicólogo Brent Roberts, da Universidade de Illinois, acrescenta que traumas na vida adulta raramente redefinem completamente quem somos.
Imagem: Internet
Novos achados e desafios
Com bases de dados cada vez maiores, cientistas já relacionaram centenas de variantes a cada traço do “big five”. Um trabalho liderado por Daniel Levey, da Universidade Yale (EUA), conectou o gene CRHR1 – envolvido na resposta ao estresse – ao neuroticismo. Outro estudo em revisão sugere que genes mais ativos no córtex pré-frontal se ligam a quatro dos cinco grandes traços, exceto amabilidade, enquanto neurônios dopaminérgicos aparecem menos envolvidos do que se pensava.
Apesar dos avanços, Levey aponta a necessidade de incluir participantes com ancestralidade não europeia para captar variações genéticas e culturais ainda pouco estudadas.
Conclusão parcial: até agora, nenhuma tentativa de explicar o comportamento humano por um conjunto restrito de genes ou por eventos únicos foi bem-sucedida. Evidências indicam um mosaico de milhares de variantes genéticas e múltiplas experiências de vida, cujos efeitos se somam e interagem ao longo do tempo.
Com informações de Folha de S.Paulo





