A indústria de bebidas alcoólicas desenvolve ações de marketing voltadas a crianças para influenciar o consumo quando esses jovens alcançarem a maioridade, afirma Raúl Martín Del Campo Sánchez, assessor regional de políticas sobre álcool e drogas psicoativas da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
Em entrevista por videochamada à Folha após participar, em abril, da Conferência Global de Políticas do Álcool, no Rio de Janeiro, o especialista destacou que menores de idade passam a reconhecer marcas de cerveja já aos 6 ou 7 anos. “Essa familiaridade cria uma expectativa positiva que se consolida na adolescência”, declarou.
Exposição precoce
Sánchez citou a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, como exemplo de alcance global: estimativa da Opas indica que 300 milhões de crianças e adolescentes foram expostos a anúncios de cerveja e destilados durante o torneio. No país, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024 apontou que 53,6% dos estudantes de 13 a 17 anos já experimentaram bebida alcoólica; 29,3% beberam pela primeira vez aos 13 anos ou menos. Entre os meninos, 49,7% relataram consumo, ante 57,5% das meninas.
Outro levantamento, do Datafolha (2025), mostrou que 49% dos brasileiros adultos consomem álcool com regularidade. Na faixa de 16 a 17 anos, o índice é de 27%.
Legislação considerada frágil
No Brasil, a lei 9.294/96 restringe a veiculação de propagandas de bebidas com teor alcoólico superior a 13% no rádio e na TV entre 21h e 6h. Produtos abaixo desse limite podem ser anunciados livremente. A norma, entretanto, não alcança o ambiente digital, permitindo que fabricantes e influenciadores divulguem marcas de álcool em redes sociais sem barreiras de horário ou faixa etária.
Para Olivia Pazzolo, psiquiatra e pesquisadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), o conteúdo repetido nos feeds faz parecer que “todo mundo bebe”, distorcendo a percepção de normalidade e incentivando o consumo precoce.
Imagem: Internet
Propostas de controle
Sánchez defende a criação de uma autoridade independente para regular a publicidade de bebidas alcoólicas, livre de influências da própria indústria. Entre as recomendações estão:
- abranger todos os meios – TV, rádio, plataformas digitais e eventos esportivos;
- aplicar sanções em caso de descumprimento;
- estender as regras a bebidas “sem álcool”, usadas para promover marcas;
- incluir mensagens claras sobre riscos à saúde, nos moldes dos alertas impressos em maços de cigarro.
“Não existe dose segura”, reforçou o representante da Opas, associando o consumo a violência, acidentes de trânsito e diversas doenças. Para ele, enquanto as ações de marketing permanecerem sem regulação efetiva, a indústria continuará “liderando a narrativa” e influenciando gerações futuras.
Com informações de Folha de S.Paulo





