Centenário de Milton Santos relembra trajetória do único latino-americano a conquistar o “Nobel da Geografia”

O geógrafo baiano Milton Almeida dos Santos, nascido em 3 de maio de 1926 e falecido em 2001, completaria 100 anos neste mês. Único pesquisador da América Latina agraciado, em 1994, com o Prêmio Vautrin Lud – considerado o “Nobel da Geografia” –, ele é apontado por especialistas como um dos intelectuais mais influentes do século 20.

Prêmio internacional e influência global

Ao receber o Vautrin Lud, Santos consolidou reconhecimento mundial por estudos sobre urbanização no chamado Terceiro Mundo e pelos trabalhos que analisam a globalização. Para o professor Lucas Melgaço, da Vrije Universiteit Brussel, o brasileiro deixou “um método e um conjunto coerente de conceitos” que ultrapassam a disciplina da geografia e dialogam com diversas ciências sociais.

Os “Quatro Brasis”

Entre as contribuições mais conhecidas está a proposta de regionalização do país em quatro áreas: Amazônica (Acre, Amazonas, Roraima, Rondônia, Pará e Amapá), Nordeste (zona da mata, agreste, sertão e meio-norte), Centro-Oeste ampliado (Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal) e Região Concentrada (Sul e Sudeste). A classificação leva em conta infraestrutura, densidade urbana, fluxos de capital, mercadorias, pessoas e informação.

Formação e exílio

Neto de um homem escravizado, Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, Chapada Diamantina. Aprendeu a ler em casa, motivado por pais e avós professores. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia em 1948 e, no mesmo período, ingressou no magistério de geografia. Em 1958 concluiu doutorado em Estrasburgo, França.

O golpe militar de 1964 interrompeu sua carreira no Brasil. Preso e posteriormente exilado, lecionou em Toulouse, na Sorbonne, na Universidade de Toronto e no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, onde fez amizade com o linguista Noam Chomsky. Trabalhou ainda na Venezuela, no Peru e na Tanzânia, onde criou o curso de pós-graduação em geografia da Universidade de Dar es Salaam.

Retorno e produção acadêmica

De volta ao país na segunda metade dos anos 1970, atuou como consultor do governo paulista e da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano. Foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e, a partir de 1984, da Universidade de São Paulo, onde permaneceu mesmo após aposentar-se em 1997.

Entre suas principais obras estão “Zona do Cacau” (1959), “O Espaço Dividido” (1979) e “Por uma Outra Globalização” (1996). Nesses trabalhos, Santos descreve o espaço geográfico como “conjunto indissociável de sistemas de objetos e de ações” e avalia a globalização como processo gerador de desigualdades, mas também de possibilidades de transformação social.

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Legado e atualidade

Pesquisadores como o sociólogo Paulo Niccoli Ramirez, da Fundação Escola de Sociologia de São Paulo, destacam a revisão crítica que Santos fez da globalização, apontando seus impactos sobre periferias e países do Sul Global. O geógrafo Cristiano Nunes Alves, da Universidade Estadual do Maranhão, ressalta que seus conceitos oferecem ferramentas práticas para analisar territórios e políticas públicas.

Nos últimos anos, parte da produção de Santos ganhou edições em inglês, impulsionando o interesse internacional por sua obra. Para o geólogo Marco Moraes, seu pensamento segue essencial para compreender relações entre espaço, técnica e poder econômico.

Ao completar um século de seu nascimento, o trabalho de Milton Santos continua a ser revisitado por universidades brasileiras e estrangeiras, reforçando seu papel de referência para o estudo das desigualdades regionais e dos caminhos possíveis da globalização.

Com informações de Folha de S.Paulo

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