A repercussão sobre a suposta desistência de Gisele Bündchen de uma alimentação sem produtos de origem animal reacendeu a discussão sobre o que realmente faz as pessoas deixarem o veganismo. Médicos, nutricionistas e ex-veganos ouvidos apontam que o maior entrave não está na nutrição, mas na dificuldade de lidar com situações sociais.
Nutrição: anemia não é regra para quem corta carne
No livro “Nutrir: Receitas Simples para Corpo e Alma”, lançado no Brasil há dois anos, Bündchen revelou ter abandonado o vegetarianismo aos 20 anos por enfrentar anemia persistente. O nutrólogo Eric Slywitch afirma, porém, que estudos não indicam maior prevalência da condição entre quem não consome carne; a exceção observada em sua pesquisa ocorre entre vegetarianas que menstruam, público mais exposto à perda de ferro.
Slywitch lembra que o ferro heme, presente em carnes, é absorvido com mais facilidade, mas recomenda combinar alimentos vegetais ricos em ferro com fontes de vitamina C para otimizar o aproveitamento do mineral.
A nutróloga Marcella Garcez reforça que, com orientação adequada e suplementos, é possível seguir o veganismo sem prejuízos à saúde. Ferro e vitamina B12 — esta inexistente em alimentos vegetais — costumam ser os nutrientes que exigem suplementação obrigatória, destaca a médica.
“Obsessão” por proteína e falta de informação
A nutricionista Alessandra Luglio, diretora do Departamento de Saúde e Nutrição da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), avalia que a ênfase recente no aumento do consumo de proteína animal, incentivada por diretrizes como as do movimento norte-americano MAHA (Make America Healthy Again), dificulta a adesão a dietas baseadas em vegetais. Segundo ela, combinações de leguminosas, verduras, sementes e cereais alcançam a ingestão proteica recomendada, e existem suplementos vegetais equivalentes ao whey protein.
Para Garcez, dois fatores pesam: desconhecimento sobre como equilibrar a dieta e logística. “Quem come fora com frequência nem sempre consegue preparar as próprias refeições”, afirma.
Estudo mostra impacto do “custo social”
Levantamento da Faunalytics (antigo Human Research Council) com 11 mil ex-vegetarianos e ex-veganos, divulgado em 2014, indica que 84% voltam a consumir produtos de origem animal. Entre os motivos, 63% citaram o incômodo de serem vistos como diferentes.
Casos pessoais ilustram dificuldades
A analista financeira Bruna Siqueira Sobrinho, 39, foi vegana por dois anos, período em que diz ter mantido exames em dia, suplementado B12 e usado proteína vegetal para sustentar treinos intensos. Ainda assim, o isolamento social e a falta de opções em festas e restaurantes a levaram a flexibilizar o cardápio: continua evitando carne, mas consome laticínios ou ovos quando não encontra alternativas.
Imagem: Internet
A cirurgiã plástica Giulia Takahashi, 34, seguiu o veganismo por dois anos e o vegetarianismo por nove. A rotina de plantões e refeições fora de casa fez com que voltasse a comer peixes e frutos do mar no ano passado, mantendo a suplementação de B12 e, quando necessário, de ferro.
O advogado Paulo Arthur Coelho, 37, aderiu ao veganismo durante a pandemia influenciado pelo então marido. Sem apresentar deficiências além da B12, retomou gradualmente o consumo de laticínios, peixes, carne branca e, por fim, carne vermelha, embora ainda reflita sobre a questão ética.
Apoio e adaptação
Para Luglio, uma alimentação vegana equilibrada pode ser simples e econômica, baseada em itens cotidianos como feijão, arroz, frutas, verduras, castanhas e sementes. O desafio, diz, é reorganizar esses alimentos e ampliar o repertório de receitas.
A presidente da SVB, Monica Buava, destaca a importância da rede de apoio. A entidade lançou o manual “Quero Virar Vegano”, com orientações para enfrentar a resistência familiar e encontrar comunidades com o mesmo perfil. “Se não der para fazer 100%, faça 80%”, aconselha.
Embora a ciência mostre ser possível suprir todos os nutrientes com estratégia e suplementação, especialistas concordam que a pressão social permanece como o principal obstáculo para a permanência no veganismo.
Com informações de Folha de S.Paulo





