Especialistas contestam revisão que põe em dúvida eficácia de novos medicamentos contra Alzheimer

Pesquisadores que atuam no estudo da doença de Alzheimer criticaram uma revisão sistemática publicada em abril de 2026 que questiona a utilidade clínica dos anticorpos monoclonais voltados à remoção da proteína beta-amilóide do cérebro. O trabalho analisou 17 ensaios clínicos randomizados, somando 20.432 participantes entre 2014 e 2024, mas, segundo os especialistas, adotou critérios que podem ter distorcido os resultados.

Principais pontos de discordância

A revisão, conduzida segundo o método Cochrane, agrupou 15 moléculas sem benefício comprovado a outras duas que apresentaram resultados positivos nos estudos — lecanemabe e donanemabe. Ambos os fármacos receberam aval da Food and Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil.

Profissionais da área afirmam que combinar drogas com perfis de eficácia, mecanismos de ação e dosagens distintos dilui o efeito observado nos medicamentos mais recentes. Eles também apontam que a maioria dos fármacos negativos é composta por compostos antigos, alguns já descontinuados e nunca adotados na prática clínica.

Fase da doença interfere nos resultados

Outro ponto levantado é a inclusão, no mesmo grupo de análise, de participantes em estágios de pré-demência e de demência instalada. Para os críticos, avaliar uma terapia direcionada à fase inicial em pessoas com comprometimento avançado reduz a chance de se observar benefício, cenário comparado ao uso de um tratamento oncológico específico em pacientes com metástase.

Avanços e desafios atuais

Apesar das controvérsias, a comunidade científica destaca que as últimas duas décadas trouxeram os maiores avanços desde a descrição da doença, em 1906. Entre as conquistas estão biomarcadores sanguíneos capazes de detectar alterações antes do surgimento de sintomas e exames de neuroimagem cada vez mais precisos, além da identificação de fatores genéticos, ambientais e de estilo de vida que afetam o risco individual.

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Imagem: Internet

Até o momento, mais de 200 ensaios clínicos em fases 2 e 3 testaram terapias anti-Alzheimer, e somente lecanemabe e donanemabe apresentaram redução significativa na progressão da doença. Ambos, contudo, podem provocar Amyloid-Related Imaging Abnormalities (ARIA), que incluem edema cerebral e micro-hemorragias, exigindo protocolos de seleção rigorosos, monitoramento por imagem e acompanhamento especializado.

Os especialistas defendem que, embora modestas, as evidências favoráveis aos dois anticorpos não devem ser descartadas por análises que coloquem todas as terapias no mesmo patamar. Para eles, rigor metodológico e transparência continuam fundamentais para orientar pacientes, familiares e profissionais de saúde.

Com informações de Folha de S.Paulo

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