O número de francesas que recorrem a métodos contraceptivos naturais, como cálculo da ovulação, medição diária da temperatura corporal e observação do muco cervical, quase dobrou em sete anos. Levantamento “Contexto da Sexualidade na França”, do Inserm, mostra que 7,5% das mulheres adotavam essas técnicas em 2023, ante 4,6% em 2016.
Entre as opções estão a tabelinha (método de Ogino), o controle de temperatura, o método de Billings e o sintotérmico, que combina os dois últimos. Todos exigem acompanhamento rigoroso e, segundo o Inserm, devem ser considerados apenas por quem aceita o risco de uma gravidez.
Fuga dos hormônios
Especialistas apontam a disseminação da chamada “hormonofobia” como principal motor dessa mudança. O ginecologista Geoffroy Robin, do Hospital Universitário de Lille, lembra que a preocupação ganhou força após a divulgação, em 2012, de riscos associados às pílulas anticoncepcionais de terceira e quarta gerações. Redes sociais têm reforçado o discurso de que métodos sem hormônio seriam mais saudáveis.
Dados do mesmo instituto revelam queda acentuada no uso da pílula: de mais de 50% das francesas de 18 a 49 anos em 2005 para 26,8% em 2023.
Casos pessoais
Louise, 26, abandonou o DIU hormonal e o implante após efeitos adversos e, há seis anos, confia apenas no acompanhamento do ciclo e na abstinência no período fértil. Já a empresária Elodie Monnier Legrand, 30, gastou mais de € 200 (cerca de R$ 1.160) em um anel inteligente e assinou um aplicativo para detectar a janela fértil, mas engravidou duas vezes em um ano e meio.
Limitações e treinamento
Ciclos menstruais irregulares — presentes em uma em cada cinco mulheres, segundo Robin — infecções, uso de medicamentos como anti-histamínicos ou paracetamol e mudanças na rotina podem comprometer a confiabilidade das medições. Em contrapartida, a ginecologista Danielle Hassoun avalia que a sintotermia oferece melhor desempenho quando a usuária recebe orientação adequada.
Imagem: Internet
Parteiras francesas passaram a oferecer sessões de capacitação, e a procura impulsionou iniciativas privadas. A advogada Laurène Sindicic criou, em 2020, a plataforma “Emancipées”, que vende acompanhamento de três ciclos por cerca de € 400 (R$ 2.318). Ela afirma que “100% das mulheres cometem erros no primeiro ciclo”. Juliette, 28, que iniciou o treinamento no início de 2025, relata “nenhum susto” até agora, embora reconheça a necessidade de disciplina constante.
Especialistas reforçam que, apesar do crescimento da demanda, os métodos naturais não protegem contra infecções sexualmente transmissíveis e requerem adesão estrita para reduzir falhas.
Com informações de Folha de S.Paulo





