O desejo de alcançar resultados impecáveis ganhou força nos últimos anos e tem se tornado fonte de frustração, ansiedade e até quadros depressivos, segundo pesquisadores e profissionais da saúde mental.
Fatores socioeconômicos pressionam gerações mais novas
Um estudo divulgado pela American Psychological Association, conduzido pelos psicólogos Thomas Curran e Andrew Hill, identificou elevação expressiva dos índices de perfeccionismo entre jovens adultos. Os autores relacionam o fenômeno a “parâmetros sociais e econômicos cada vez mais exigentes”, que ampliam a competição por emprego, moradia e status.
Meritocracia amplia sensação de disputa permanente
O filósofo Michael J. Sandel, no livro “A Tirania do Mérito”, ressalta que o sistema capitalista meritocrático sustenta uma divisão entre vencedores e perdedores. Para Sandel, esse modelo corrói a solidariedade social, alimenta a autoconfiança dos bem-sucedidos e provoca baixa autoestima em quem não atinge os padrões de excelência.
Redes sociais funcionam como vitrines de sucesso
Plataformas digitais potencializam a busca por reconhecimento ao exibir conquistas profissionais, bens de consumo e padrões estéticos. A proximidade virtual com essas imagens, avaliam especialistas, transforma-as em referência e gera sentimentos de inveja, inadequação e vergonha quando metas semelhantes não são alcançadas.
Visão clínica: traço de personalidade, não um transtorno
Embora não figure nos manuais de diagnóstico psiquiátrico, o perfeccionismo é apontado como fator de risco para depressão, ansiedade e transtornos alimentares. O psicanalista Josh Cohen, professor da Universidade de Londres, lembra que o impulso de ser perfeito atravessa culturas e religiões, mas ganhou proporções inéditas no contexto contemporâneo.
Existe perfeccionismo “saudável”?
Em 1978, o psicólogo D. E. Hamachek propôs a distinção entre perfeccionismo “normal” — caracterizado por metas altas sem autocrítica punitiva — e o tipo neurótico. Parte da comunidade científica contesta essa divisão, argumentando que nenhum esforço para atingir a perfeição seria isento de riscos emocionais, já que o objetivo é impossível de ser alcançado.
Imagem: Internet
A psicoterapeuta Moya Sarner reforça a ideia de que o desafio está em buscar aprimoramento sem esperar chegar ao “pedestal mais alto”. “Se você investe todo o tempo tentando transformar a vida naquilo que imagina, acaba deixando de viver o que realmente existe”, afirma.
Para especialistas, reconhecer limites pessoais e valorizar etapas intermediárias pode reduzir a angústia provocada por padrões inatingíveis, principalmente em um ambiente que estimula comparação constante.
Com informações de Folha de S.Paulo





