Agentes da Receita Federal vêm registrando apreensões diárias de canetas emagrecedoras que afirmam conter retatrutida, molécula ainda em fase de testes clínicos, na fronteira entre Brasil e Paraguai. O material chega a representar quase 10% de todas as apreensões desse tipo de produto no Paraná, segundo dados obtidos em Foz do Iguaçu.
A advogada paulista Mariane, 42 anos, foi flagrada na alfândega de Foz com sete canetas presas ao corpo, protegidas por um casaco. Ela alegou ter comprado apenas um pote de creme de avelã, mas acabou autuada. A compradora contou que usa versões paraguaias do medicamento há seis meses e afirma ter perdido mais de 20 kg, economizando cerca de R$ 300 por unidade ao adquirir o produto diretamente no país vizinho.
Produto não aprovado
A retatrutida está em desenvolvimento pela farmacêutica norte-americana Eli Lilly e ainda não tem autorização para uso humano em nenhum lugar do mundo. Ensaios de fase 3 indicam possível redução de peso de até 28,7% em 15 meses, superando semaglutida e tirzepatida, mas não há previsão de lançamento comercial.
Apesar disso, versões “piratas” são vendidas livremente no Paraguai e em redes sociais brasileiras. Em junho de 2025, a Dinavisa (agência sanitária paraguaia) alertou que esses produtos não possuem registro e podem conter substâncias não declaradas.
Fronteira em alerta
Segundo a Receita, as canetas já são o segundo item mais apreendido em Foz do Iguaçu, atrás apenas de celulares. São encontradas escondidas em casacos, escapamentos de motos, garrafas térmicas e até embalagens de salgadinhos. Quando não há responsável identificado, motoristas e proprietários dos veículos respondem pelo contrabando.
A Polícia Federal afirma que organizações criminosas passaram a atuar nesse mercado por ser um produto pequeno e de alto valor agregado. Em uma única operação, agentes apreenderam medicamentos avaliados em R$ 2 milhões.
Riscos à saúde
Para a endocrinologista Caroline Janovsky, da Unifesp, não há garantia de dose correta nem de condições adequadas de armazenamento. As canetas deveriam permanecer entre 4 °C e 9 °C; fora dessa faixa, podem perder eficácia ou tornar-se meio de cultura para bactérias, aumentando o risco de infecções graves.
Imagem: Internet
Casos recentes de internações e mortes ligados a produtos paraguaios reforçaram a preocupação das autoridades. A Anvisa lembra que medicamentos sem registro não tiveram qualidade, eficácia e segurança avaliadas no Brasil.
Legislação e preços
A importação pessoal de remédios é permitida apenas com receita no nome do viajante e quantidade para até três meses de tratamento. Marcas como Gluconex, Tirzedral, Lipoless, Lipoland, T.G e Tirzec, todas à base de tirzepatida, tiveram entrada proibida.
No Brasil, a única tirzepatida autorizada é o Mounjaro, vendido a partir de R$ 1,5 mil. No Paraguai, canetas que se dizem equivalentes custam cerca de R$ 300, enquanto ampolas saem por R$ 35. A diferença de preço estimula o contrabando e o uso sem acompanhamento médico.
Quem é pego transportando os produtos pode responder por crime contra a saúde pública, com pena de 10 a 15 anos de prisão, dependendo do histórico do infrator, segundo a Polícia Federal.
Com informações de Folha de S.Paulo





