Estudos observacionais indicam que quatro grupos de remédios largamente utilizados — anticolinérgicos, antipsicóticos, benzodiazepínicos e inibidores da bomba de prótons — podem estar relacionados a um aumento do risco de demência, segundo especialistas ouvidos por universidades norte-americanas e britânicas.
Anticolinérgicos lideram a preocupação
Entre os fármacos citados, os anticolinérgicos concentram as evidências mais consistentes. Essa classe, que inclui anti-histamínicos vendidos sem receita para alergia ou insônia, bloqueia a ação da acetilcolina, neurotransmissor fundamental para memória e atenção. Pesquisas sugerem que o uso diário por vários anos pode elevar a probabilidade de demência em cerca de 50%.
Shelly Gray, professora da Faculdade de Farmácia da Universidade de Washington, ressalta que o consumo ocasional de produtos como Benadryl tem impacto mínimo, mas a Sociedade Americana de Geriatria recomenda que idosos evitem esses compostos também pelo risco de quedas. Anti-histamínicos de segunda geração, a exemplo de loratadina (Claritin) e cetirizina (Zyrtec), não apresentam ação anticolinérgica e são apontados como alternativas mais seguras. Para insônia, Gray sugere considerar terapia cognitivo-comportamental em vez de medicamentos como ZzzQuil ou Unisom.
Antipsicóticos mantêm alerta
Pesquisas relacionam antipsicóticos a maior incidência de demência e a piora da função cognitiva em pessoas de meia-idade. Há ainda registros de aumento da mortalidade entre pacientes com demência que recebem esses fármacos para controlar sintomas psiquiátricos. David Llewellyn, professor da Universidade de Exeter, admite que, em doenças como esquizofrenia, o benefício imediato supera riscos de longo prazo, mas defende a redução de prescrições em quadros demenciais.
Benzodiazepínicos geram dúvidas
Ansiolíticos e indutores do sono da família dos benzodiazepínicos também aparecem associados à demência. A mesma sociedade geriátrica norte-americana aconselha evitar seu uso em idosos devido a possíveis prejuízos cognitivos, delírio e quedas. Contudo, um estudo conduzido por Geoffrey Joyce, da Universidade do Sul da Califórnia, analisou pacientes que receberam benzodiazepínicos apenas para dor nas costas e não encontrou relação com diagnósticos de demência. O pesquisador reforça que novas investigações são necessárias.
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Inibidores da bomba de prótons apresentam evidências conflitantes
Remédios indicados para refluxo ácido, como omeprazol e pantoprazol, também foram examinados. Enquanto alguns levantamentos detectaram maior risco de demência, outros não confirmaram a ligação. Uma hipótese é que esses fármacos provoquem deficiência de vitamina B12, nutriente associado à função cognitiva. Em um ensaio clínico com adultos mais velhos, o pantoprazol não elevou a incidência de demência durante três anos de acompanhamento.
Por se tratarem majoritariamente de estudos observacionais, os cientistas alertam que as associações não comprovam causalidade. Mesmo assim, recomendam que pacientes conversem com profissionais de saúde sobre a possibilidade de suspender ou substituir medicamentos de uso contínuo considerados de risco.
Com informações de Folha de S.Paulo





