Um levantamento realizado pela anatomista Lucy E. Hyde, da Universidade de Bristol (Reino Unido), descreve como estruturas do corpo humano ainda carregam adaptações incompletas herdadas de milhões de anos de evolução. O trabalho, publicado no portal acadêmico The Conversation, relaciona dores nas costas, partos complicados, apinhamento dentário e sinusites a esse processo, contrariando a noção de que o organismo seria fruto de um “design perfeito”.
Coluna vertebral sobrecarregada
Segundo Hyde, a coluna permaneceu próxima ao modelo utilizado por ancestrais quadrúpedes, mas passou a sustentar o peso do tronco quando a espécie adotou o bipedalismo. As curvaturas que equilibram o corpo em pé também criam pontos de tensão, facilitando lombalgias, hérnias de disco e processos degenerativos.
Desvio do nervo laríngeo
No pescoço, o nervo laríngeo recorrente deixa o cérebro, desce ao tórax, contorna uma artéria e só então retorna à laringe. O trajeto, descrito como ilógico, é herança dos primeiros vertebrados aquáticos, cujos arcos branquiais estavam próximos ao coração.
Retina “invertida” gera ponto cego
A retina dos vertebrados é conectada de modo que a luz atravessa fibras nervosas antes de alcançar os fotorreceptores. A disposição provoca um ponto cego logo abaixo da linha horizontal de visão, compensado pelo cérebro, mas ausente em cefalópodes, que exibem arranjo mais direto.
Dentes sem espaço
Enquanto dietas mais macias reduziram o tamanho das mandíbulas, a quantidade de dentes permaneceu a mesma. O resultado são sisos impactados e fileiras apinhadas, que frequentemente exigem extração cirúrgica. Além disso, humanos só contam com duas dentições ao longo da vida, diferentemente de tubarões, que renovam dentes continuamente.
Pélvis estreita e parto difícil
Para se locomover de forma eficiente em duas pernas, a pélvis humana precisa ser compacta. Ao mesmo tempo, deve permitir a passagem de bebês com crânios grandes. Esse compromisso anatômico torna o parto mais arriscado e explica a dependência crescente de assistência obstétrica.
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Órgãos de função discutida
Características como o apêndice, os seios da face e os pequenos músculos que movimentam a orelha permanecem no corpo por não imporem prejuízos significativos. Contudo, podem gerar problemas: apendicite, infecções sinusais recorrentes e, no caso dos seios da face, bloqueios por drenagem ineficiente.
Para a pesquisadora, reconhecer esses limites ajuda a compreender a origem de doenças comuns e evidencia que a evolução trabalha com ajustes graduais, e não com projetos idealizados.
Com informações de Folha de S.Paulo





