Imagens históricas de 1968 e 2026 escancaram mudanças na Terra em menos de seis décadas

São Paulo – Duas fotografias separadas por 58 anos – o “nascer da Terra”, registrado pela Apollo 8 em 1968, e o “pôr da Terra”, captado pela missão Artemis 2 em 6 de abril de 2026 – reforçam o quanto o planeta mudou em pouco mais de meio século, apontam cientistas.

A primeira visão

Em 24 de dezembro de 1968, durante a quarta órbita ao redor da Lua, o astronauta Bill Anders fotografou a Terra surgindo no horizonte lunar. O comandante Frank Borman descreveu, anos depois, a surpresa diante de “o único ponto colorido em meio ao vazio”. A imagem impulsionou o movimento ambientalista e inspirou a criação do Dia da Terra em 1970.

O clique de 2026

Às 18h41 (horário da costa leste dos EUA; 19h41 em Brasília) de 6 de abril, a tripulação da Artemis 2 – que preferiu não individualizar a autoria – capturou, da cápsula Orion, a Terra “mergulhando” por trás da paisagem lunar árida. A foto mostra nuvens e oceanos sobre a Oceania, enquanto a metade escura do globo já estava em noite profunda.

De uma casualidade ao planejamento

Se em 1968 o registro foi acidental, desta vez a agência espacial norte-americana se preparou. Questionada antes do lançamento, Lori Glaze, diretora de exploração da Nasa, afirmou que “faria todo o possível” para repetir o feito histórico.

Transformações visíveis

Segundo Richard Allan, climatologista da Universidade de Reading (Reino Unido), a concentração de dióxido de carbono subiu cerca de 33% desde 1968 e a temperatura média global aumentou pelo menos 1 °C. O período também testemunhou expansão urbana, avanço do desmatamento e redução do Mar de Aral a menos de 10% do tamanho original.

As mudanças são perceptíveis até nas imagens, mesmo sob nuvens. Benjamin Wallis, da Universidade de Leeds, observa que ambas mostram a Antártida e o Oceano Austral. “A Península Antártica está entre as áreas que mais aquecem no planeta”, diz. Estudos indicam o colapso de cerca de 28 mil km² de plataformas de gelo desde a foto da Apollo 8.

Petra Heil, do Levantamento Britânico da Antártida, relata queda drástica na cobertura sazonal de gelo marinho e na neve de latitudes médias do hemisfério norte. “Provavelmente 90% a 95% dessa mudança decorrem de atividades humanas”, afirma.

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Imagem: Internet

Impacto humano e inspiração

Craig Donlon, da Agência Espacial Europeia, destaca que fotografias feitas por astronautas provocam reação emocional única: “Elas nos lembram que ali está tudo o que conhecemos”. Para a astronauta Sian Proctor, piloto da missão civil Inspiration4, novas imagens podem reacender a consciência ambiental: “A Apollo 8 mudou nossa visão do planeta; precisamos dessa inspiração de novo”.

Kathleen Rogers, presidente da rede do Dia da Terra, recorda que, mesmo em 1968, já havia sinais evidentes de poluição em grandes cidades e rios. “De longe, a Terra parece perfeita; de perto, vemos os estragos”, comenta.

Frank Borman, falecido em 2023, resumiu o legado da Apollo 8: “Fomos à Lua, mas acabamos mais interessados na Terra”. As duas fotos históricas mantêm essa mensagem viva para a geração que retomou as viagens lunares.

Com informações de Folha de S.Paulo

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