Comunidades ribeirinhas de Eirunepé, no interior do Amazonas, começaram a receber atenção em saúde mental por meio de consultas virtuais e de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) fluvial que percorre o rio Gregório. A ampliação do serviço beneficia principalmente mulheres, cujas queixas mais frequentes envolvem ansiedade, sofrimento emocional e conflitos familiares.
A Folha acompanhou os atendimentos na comunidade do Ubim, localizada dentro da Reserva Extrativista do Rio Gregório. O local passou a contar, pela primeira vez em mais de 80 anos, com um posto de saúde flutuante viabilizado por parcerias entre órgãos públicos e empresas privadas.
Equipe itinerante do SUS
Desde 7 de abril, a psicóloga Caroline Stephanie Marques de Souza, 28, integra a equipe móvel do Sistema Único de Saúde (SUS) que visita a região a bordo da UBS fluvial. Além da psicóloga, o barco abriga médico, enfermeiros, dentista e farmacêutico.
Segundo Caroline, muitos relatos femininos refletem pressões para cumprir papéis sociais rígidos, episódios de violência e dependência econômica do parceiro. O resultado costuma ser um quadro de ansiedade. Como a equipe permanece poucos dias em cada localidade, o acompanhamento acaba limitado a acolhimento, orientação e encaminhamento para serviços na cidade, quando possível.
Explicando o que é psicologia
Em áreas onde o tema ainda é pouco conhecido, Caroline dedica parte do tempo a explicar a importância do cuidado com a mente. “Quando entendem, as mulheres se abrem; há uma necessidade enorme de falar”, afirma.
Internet viabiliza teleconsultas
O aumento da cobertura de internet na floresta, acelerado na pandemia, tornou possível o atendimento remoto. A psicóloga Cristina Maranghello, consultora da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), realiza teleconsultas em uma sala do novo posto de saúde.
Cristina observa que, apesar das particularidades do território, os diagnósticos mais comuns reproduzem o padrão urbano: depressão e ansiedade. Cheias, secas severas e presença do tráfico agravam o quadro, mas a maior parte dos gatilhos está ligada a conflitos familiares, mudanças bruscas de vida, luto, alcoolismo e violência doméstica.
Imagem: Internet
Demandas complexas e pouca oferta
Casos de abuso sexual, muitas vezes naturalizados em casamentos precoces, aparecem com frequência. Já a enfermeira Alessandra Fernandes, responsável pelo planejamento familiar, relata resistência inicial ao uso de métodos contraceptivos, superada após conversas pacientes com mulheres e maridos.
Maternidade precoce ainda é rotina: há relatos de mulheres de 20 anos com quatro filhos e adolescentes de 13 anos já mães. A assistência em saúde mental depende do trabalho dos agentes comunitários de saúde, que fazem a ponte entre moradores e profissionais. Cristina atende sozinha cerca de 25 pacientes ribeirinhos, entre sessões semanais e quinzenais, e enfrenta fila de espera.
Histórias de perda e sobrevivência
A moradora Maria Celeste Pereira Guiçoso, 68, mãe de 15 filhos, perdeu três deles e o marido. O luto prolongado, somado ao alcoolismo de um dos filhos, desencadeia crises de choro e medo. Outro caso acompanhado por Caroline envolve uma mulher de pouco mais de 30 anos, mãe de 11 filhos. A equipe local sugeria laqueadura, mas a psicóloga identificou que o marido estimulava novas gestações para garantir benefícios sociais, num contexto de insegurança alimentar agravada pela seca.
Para as profissionais, exemplos como esses mostram que o tratamento não pode se limitar a sintomas ou medicação; é preciso considerar fatores culturais, sociais e econômicos que atravessam a vida das famílias ribeirinhas.
Com informações de Folha de S.Paulo





