Nova York (EUA) – Quase dez anos depois de ter ferido gravemente o pai durante um surto psicótico, o assistente social Cohen Miles-Rath, 32, celebra a paternidade e a reconciliação familiar em Cohocton, no interior do estado de Nova York.
Em 2016, então aluno da SUNY Geneseo, Miles-Rath experimentava delírios e alucinações intensificados pelo consumo diário de maconha. Convencido de que “o diabo” possuía o pai, Randy Rath, ele pegou uma faca de cozinha, mordeu parte do lóbulo da orelha do familiar e desferiu golpes contra a garganta dele. A agressão durou segundos, mas rendeu indiciamento por tentativa de homicídio e dano criminal, crimes que poderiam somar até dez anos de prisão.
Preso, o jovem recebeu o antipsicótico olanzapina (Zyprexa), que reduziu as vozes que ouvia. Randy retirou a queixa de agressão e o filho firmou acordo judicial: um ano de liberdade condicional, tratamento obrigatório e exames toxicológicos.
Reconstrução familiar
Apesar da ordem de afastamento em vigor, pai e filho se reencontraram no estacionamento do tribunal poucos meses depois. Randy o abraçou e declarou perdão, gesto que marcou o início da reaproximação. Seis meses mais tarde, Cohen voltou a viver na casa paterna.
Hoje aposentado, Randy admite não ter reconhecido os sinais de psicose do filho antes do ataque, mesmo após uma internação psiquiátrica de cinco dias realizada um mês antes do crime. “Achei que fosse apenas estresse universitário”, afirmou.
Nova rotina e responsabilidades
Formado em serviço social, Miles-Rath coordena programas de prevenção ao suicídio no Escritório de Saúde Mental de Nova York. Ele se mantém sem antipsicóticos há cerca de oito anos —medida tomada com acompanhamento médico—, abandonou o uso de cannabis e vigia sintomas que podem ressurgir em situações de estresse ou privação de sono.
No início de 2026, nasceu a primeira filha dele com Elizabeth Finger, com quem se relaciona desde 2019. A companheira soube do histórico de saúde mental já no terceiro encontro; amigos aconselharam o término, mas ela decidiu prosseguir. O casal mantém planos de contingência que incluem repouso, linhas de ajuda e eventual retomada de medicação.
Imagem: Internet
Violência e doença mental
Segundo dados citados por pesquisadores norte-americanos, cerca de 300 parricídios ocorrem anualmente nos Estados Unidos, equivalendo a 2% dos homicídios do país. Estudos apontam que apenas 4% dos crimes violentos envolvem pessoas em surto psicótico, mas casos dentro de casa, como o de Miles-Rath, costumam ganhar repercussão.
Para ajudar outras famílias, Cohen participa de palestras e grupos de apoio que discutem recuperação após episódios de violência associados a transtornos mentais. Ele descreve a própria condição como “crônica, tal qual diabetes”, exigindo monitoramento contínuo.
Enquanto observa a filha dormir, Randy brinca com o cuidado excessivo do filho recém-pai. Para ambos, a cena marca a distância percorrida desde o dia em que vidas foram quase destruídas por uma faca de cabo branco.
Com informações de Folha de S.Paulo





