A penúltima parte da série “Como Deus nasceu”, assinada pelo jornalista e pesquisador Reinaldo José Lopes, descreve como o Corão apresenta Allah, o Deus único do Islã. O texto integra a coluna “Darwin e Deus” e foi produzido em São Carlos (SP).
Segundo a tradição islâmica, o livro sagrado foi revelado gradualmente ao profeta Maomé entre 610 e 632 d.C., nas cidades de Meca e Yathrib (atual Medina). Hoje, essas revelações estão organizadas em 114 capítulos, as suras.
O colunista lembra que há intensa discussão acadêmica sobre a biografia de Maomé e sobre a compilação do Corão, já que os relatos mais antigos sobre a vida do profeta surgiram 150 anos após sua morte. Apesar disso, inscrições datadas da década de 680, como as do Domo da Rocha em Jerusalém, já citam trechos corânicos.
Relacionamento com tradições judaico-cristãs
Os textos corânicos fazem referência frequente a personagens e episódios da Bíblia hebraica e do Novo Testamento — de Adão a Jesus —, inclusive utilizando detalhes presentes em evangelhos apócrifos. Esses recursos, explica Lopes, reforçam a tese central da obra: a unicidade irrestrita de Allah.
No Corão, Deus não pertence a uma Trindade, não tem companheira nem filhos. Figuras veneradas por judeus e cristãos, como Abraão, Moisés e o próprio Jesus, aparecem como profetas — jamais como divindades. Jesus, chamado “filho de Maria”, teria nascido por intervenção divina, mas não é considerado parte de Allah. Seus adversários tentam crucificá-lo, porém, segundo o livro, fracassam porque Allah o salva.
Misericórdia e julgamento
Descrito como misericordioso e paciente, Allah enviaria revelações desde o início dos tempos por meio de uma longa cadeia de profetas. Com o passar dos séculos, as mensagens teriam sido esquecidas ou distorcidas, explicando diferenças doutrinárias entre muçulmanos, judeus e cristãos.
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Ainda que compassivo, Allah é apresentado como juiz severo. Crer em Deus e no “Último Dia” — expressão recorrente no texto — sintetiza a fé verdadeira. O Islã, afirma a coluna, compartilha com o cristianismo primitivo uma visão apocalíptica que inclui o Juízo Final, recompensas paradisíacas para os justos e punição eterna para os maus.
Dois critérios predominam na avaliação divina, de acordo com o Corão: a prática da solidariedade social — ajuda a órfãos, viúvas, pobres e viajantes — e a disposição para defender a fé quando ameaçada. Ambos teriam peso semelhante na balança celestial.
O capítulo final da série, ainda sem data divulgada, abordará a formulação da doutrina islâmica e a posterior divisão entre sunitas e xiitas.
Com informações de Folha de S.Paulo





