Inteligência artificial acelera esforços para decifrar a comunicação entre humanos e animais

São Paulo – Do assobio dos golfinhos aos cliques das baleias, cientistas recorrem a ferramentas de inteligência artificial (IA) e novos equipamentos de captação de áudio para aproximar a comunicação humana do universo animal.

Primeiro prêmio para “tradutores”

Em 2025, o Desafio Coller Dolittle distribuiu recompensas às melhores pesquisas sobre interação interesspecies. A equipe vencedora, dos Estados Unidos, detectou que determinados assobios de golfinhos desempenham papel semelhante ao de palavras entre humanos.

Escalas sonoras invisíveis ao ouvido humano

Microfones capazes de registrar frequências além do alcance auditivo das pessoas já revelam detalhes inéditos. A professora Kate Jones, da University College London (UCL), lembra que morcegos podem produzir sons de até 212 kHz, bem acima do limite humano de 20 kHz. “Eles usam o som para alertar, acasalar ou expressar medo”, afirma.

Na faixa oposta, os elefantes emitem chamados infrassônicos. A bióloga Katy Payne percebeu essa característica em meados da década de 1980, durante visita a um zoológico de Portland (EUA). A observação levou à criação do projeto Ouvindo os Elefantes, cujo banco de dados permanece ativo na Universidade Cornell.

Algoritmos aprendem com elefantes

Com base nesse acervo, o pesquisador Alastair Pickering, também da UCL, treina algoritmos para reconhecer idade, sexo e até estado emocional dos elefantes. A meta é processar as vocalizações em tempo real, o que pode ajudar a prever invasões de manadas em áreas agrícolas.

O especialista ressalta, porém, que a IA ainda confunde sons sobrepostos. “Se um tucano cantar sempre que um elefante vocaliza, o sistema pode associar erroneamente as duas espécies”, explica. A revisão humana continua indispensável.

Identificação de morcegos e baleias

Kara Jones prevê o uso da IA para diferenciar espécies de morcegos a partir dos chamados – procedimento comparado ao treinamento de assistentes virtuais como a Siri. A tecnologia também avança sobre a linguagem das baleias-cachalote, que se comunicam por cliques. O biólogo David Gruber, da City University of New York, comanda a Cetacean Translation Initiative (Ceti) e já consegue antecipar, com certo grau de acerto, o próximo clique emitido pelos cetáceos.

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Imagem: Internet

Gruber sonha com um “tradutor universal” de sistemas de comunicação, aplicável a qualquer espécie – ou, em teoria, a formas de vida extraterrestres.

Limites de uma conversa bidirecional

Apesar do otimismo, há cautela. O especialista em golfinhos Vincent Janik, da Universidade de St. Andrews, questiona a viabilidade de um diálogo pleno com outras espécies. “Mesmo que pudéssemos ‘falar’, o que diríamos? A forma como eles percebem o mundo é diferente da nossa”, observa.

A combinação de captação acústica avançada e IA vem iluminando o que antes era imperceptível, mas pesquisadores lembram que entender não significa, necessariamente, conversar.

Com informações de Folha de S.Paulo

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