Salmões-do-atlântico juvenis submetidos a doses de cocaína ou de benzoilecgonina – metabólito gerado pelo organismo humano após o consumo da droga – nadam mais rápido e cobrem distâncias maiores do que exemplares não expostos. A conclusão é de pesquisa publicada na segunda-feira (20) na revista Current Biology.
O trabalho foi liderado pelo toxicologista ambiental Jack Brand, da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, que obteve autorização de órgãos governamentais para testar a influência de contaminantes presentes em cursos d’água sobre peixes.
Após o aval, a equipe implantou em dezenas de salmões de dois anos cápsulas de liberação lenta contendo cocaína, benzoilecgonina ou solução neutra (grupo controle). Cada peixe recebeu também uma etiqueta eletrônica para monitoramento.
Os animais foram soltos no lago Vättern, no sul da Suécia, local abastecido regularmente com salmão para pesca recreativa. Durante oito semanas, seus deslocamentos foram acompanhados à distância.
Os exemplares expostos à cocaína já apresentaram aceleração do nado, mas aqueles que receberam benzoilecgonina exibiram comportamento ainda mais pronunciado: percorreram quase o dobro da distância semanal registrada pelos peixes do grupo controle e avançaram em média 12,2 quilômetros além do ponto de soltura.
Segundo Tomas Brodin, coautor do estudo, avaliações de risco que considerem apenas a cocaína podem subestimar os impactos ambientais, pois derivados da substância mostraram efeito maior sobre o comportamento dos peixes.
Pesquisas anteriores já haviam detectado, em ambientes aquáticos, a presença de antidepressivos, analgésicos, anti-histamínicos, estatinas e de própria cocaína em tecidos de salmões-rei no Puget Sound, nos Estados Unidos. Outros trabalhos indicaram que ansiolíticos deixavam salmões selvagens mais suscetíveis a predadores.
Imagem: Internet
Para James Meador, toxicologista ambiental da Universidade de Washington que não participou do novo estudo, qualquer alteração na fisiologia ou no comportamento dos peixes tende a ser prejudicial, pois aumenta o gasto energético e rompe a interação natural com o habitat.
Especialistas apontam que a presença de drogas e seus metabólitos em rios e lagos representa desafio de engenharia sanitária. Apenas nos Estados Unidos, estações de tratamento processam cerca de 129 bilhões de litros de esgoto por dia, e a instalação de sistemas capazes de remover esses compostos exigiria altos investimentos e ampla adaptação estrutural.
Brand classifica cocaína, benzoilecgonina e outros produtos químicos oriundos da atividade humana como “agentes invisíveis de mudança global” e alerta para a falta de consciência pública sobre seus potenciais efeitos na fauna aquática.
Com informações de Folha de S.Paulo





