A retatrutida, molécula ainda em fase de testes pela farmacêutica norte-americana Eli Lilly, virou alvo de contrabando entre Paraguai e Brasil. Em Foz do Iguaçu (PR), agentes da Receita Federal e da Anvisa apreendem diariamente canetas “piratas” que dizem conter o novo fármaco, não autorizado para uso em nenhum país.
Na mais recente ocorrência, uma advogada de 42 anos, identificada como Mariane, foi flagrada com sete canetas presas ao corpo. Ela contou que, após perder mais de 20 kg usando o produto comprado on-line, decidiu viajar a Ciudad del Este para economizar cerca de R$ 300 por unidade. Descoberta na alfândega, foi autuada e liberada para retornar a São Paulo.
Apreensões superam todo 2025 em apenas três meses
Somente de janeiro a março de 2026, as apreensões dessas canetas somaram mais de R$ 11 milhões no Paraná, ultrapassando o valor retido em todo o ano passado. Segundo a Receita, os dispositivos são hoje o segundo item mais apreendido na fronteira, atrás apenas de celulares. As unidades com suposta retatrutida já representam quase 10% das retenções do gênero no Estado.
Os produtos chegam escondidos em pacotes de salgadinhos, garrafas térmicas, peças automotivas e até colados ao corpo de passageiros. Quando a carga é abandonada, a responsabilidade recai sobre motoristas e proprietários dos veículos. Em um único caso, a Receita encontrou centenas de canetas e ampolas avaliadas em cerca de R$ 2 milhões.
Riscos sanitários e falta de refrigeração
Especialistas alertam para a ausência de controle de qualidade. A endocrinologista Caroline Janovsky, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, destaca que a caneta deve ser mantida entre 4 °C e 9 °C. “Se o produto for exposto a calor, perde eficácia e pode virar meio de cultura para bactérias, gerando complicações graves”, afirma.
A Eli Lilly informa que a retatrutida só está disponível em estudos clínicos e que versões não oficiais “podem ser perigosas e até fatais”. Em junho de 2025, a agência sanitária paraguaia (Dinavisa) também emitiu alerta confirmando que nenhum produto com o nome retatrutida possui registro no país.
Imagem: Internet
Preço atrai consumidores e criminosos
No Brasil, a única tirzepatida autorizada, o Mounjaro, custa a partir de R$ 1.500. No Paraguai, canetas anunciadas como “equivalentes” saem por cerca de R$ 300, enquanto ampolas são vendidas a partir de R$ 35. A diferença de valor impulsiona o mercado ilegal, hoje alvo de organizações criminosas, segundo a Polícia Federal.
Flagrados pela primeira vez podem responder a processo administrativo; reincidentes estão sujeitos a pena de 10 a 15 anos de prisão por crime contra a saúde pública.
Com informações de Folha de S.Paulo





