Mais de 1 milhão de médicos e enfermeiros foram imunizados contra a dengue nos últimos meses com a Butantan-DV, primeira vacina de dose única do mundo contra a doença e a primeira inteiramente desenvolvida no Brasil. Aprovada em novembro, a fórmula foi criada, testada e fabricada pelo Instituto Butantan, vinculado ao governo paulista.
Em 4 de maio, o instituto recebeu sinal verde para iniciar a produção de uma vacina contra a chikungunya e também conduz estudos para imunizantes contra zika, segundo o diretor Esper Kallás.
Meta de “soberania médica”
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de volta ao Planalto desde 2023, defende ampliar a chamada “soberania médica” após as dificuldades enfrentadas na pandemia de Covid-19. No início da crise sanitária, apenas 5% dos insumos farmacêuticos ativos (IFAs) usados no país eram fabricados internamente, proporção inferior à de Bangladesh, informa a Abiquifi.
Com cadeias globais pressionadas, faltaram seringas, anestésicos e vacinas. A ButanVac, candidata brasileira contra a Covid-19, foi descartada por baixo desempenho, enquanto o país contabilizou mais de 700 mil mortes pela doença.
Aumento de recursos
Desde 2023, o orçamento do Ministério da Saúde cresceu 30%. Em 2024, o BNDES mais que dobrou os financiamentos ao setor de saúde. As medidas integram um programa industrial voltado ao “complexo econômico-industrial da saúde”, que dispõe de cerca de US$ 11 bilhões (R$ 55 bilhões).
O governo concede empréstimos, subsídios e participa do capital de empresas nacionais com o objetivo de elevar de 45% em 2024 para 70% em 2033 a fatia de medicamentos e equipamentos produzidos no país. Uma nova fábrica nos arredores do Rio de Janeiro deve quadruplicar a capacidade brasileira de concluir vacinas parcialmente processadas.
Incentivos regulatórios e contra a fuga de cérebros
Regras de pesquisa clínica foram alteradas em 2025 para agilizar a aprovação de estudos, movimento que, segundo Reginaldo Arcuri, da FarmaBrasil, deve beneficiar investigações iniciais de novos fármacos. O Senado analisa ainda uma estratégia nacional de saúde que amplia a preferência a fabricantes locais em compras públicas.
Imagem: Internet
Entre 2015 e 2022, cerca de 7 mil pesquisadores deixaram o Brasil. Para reverter o quadro, o governo lançou programas de atração e retenção de talentos. Um deles, o “Conhecimento Brasil”, dispõe de mais de US$ 100 milhões (R$ 502 milhões) para pesquisa em 2025 e já trouxe 600 cientistas de volta. Outros US$ 40 milhões (R$ 200 milhões) financiam estudos no exterior. Em 2026, a iniciativa prevê mil bolsas de doutorado e mais US$ 100 milhões (R$ 502 milhões) para atrair pesquisadores estrangeiros; os Estados Unidos são alvo preferencial, afirma o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Custos, desafios e disputas
O Ministério da Saúde calcula ter economizado US$ 2 bilhões (R$ 10 bilhões) entre 2011 e 2017 graças a preços menores de laboratórios que utilizam IFAs nacionais, sem detalhar os subsídios envolvidos. No entanto, a aposta estatal enfrenta críticas: empresas de genéricos veem risco de concorrência desleal, e o governo norte-americano mantém investigação sobre a política industrial brasileira, inclusive no setor farmacêutico.
Questões de propriedade intelectual também geram tensão. Lula cogitou, segundo relatos, rever patentes de corporações estrangeiras, possibilidade que preocupa multinacionais. Além disso, tetos de preços para medicamentos são populares, mas podem desestimular investimentos privados em pesquisa.
O Instituto Butantan avança em novas vacinas graças ao alinhamento entre pesquisa, regulação e financiamento públicos. Ainda assim, a comparação com a Merck, que investe cerca de US$ 16 bilhões (R$ 80 bilhões) anuais em P&D — valor dez vezes superior a todo o gasto farmacêutico estatal brasileiro mesmo após a expansão — evidencia a dimensão do desafio para ampliar a inovação em todo o setor.
Com informações de Folha de S.Paulo





