De rancores acumulados a ataques letais: especialistas traçam a rota de um atirador em massa

O ataque de 15 de abril que deixou oito alunos e um professor mortos em uma escola de ensino fundamental de Kahramanmaras, no sul da Turquia, evidenciou mais uma vez o padrão que costuma anteceder atos de violência em massa: acúmulo de ressentimentos, crise pessoal e oportunidades perdidas de intervenção.

Como se forma o agressor

Segundo John Horgan, diretor do Grupo de Pesquisa sobre Extremismo Violento da Georgia State University (EUA), a ideia de que atiradores “perdem o controle” de forma repentina é equivocada. “Há sempre um histórico de traumas e humilhações que se intensificam até um ponto de ruptura”, afirma.

O psicólogo forense J. Reid Meloy, consultor do FBI, reforça que o fator predominante não é doença mental diagnosticada. “A maioria dos ataques nasce de ressentimentos ligados a perdas, raiva ou culpa, às vezes combinados com ideologias extremistas”, explica.

Para James Densley, professor de criminologia da Metro State University de Minnesota, o problema está mais relacionado à ausência de bem-estar mental. “Confundir crise pessoal com transtorno mental estigmatiza milhões de pessoas que nada têm a ver com violência”, observa.

De ferida pessoal a alvo coletivo

Densley descreve o ponto de partida como uma “ferida”, real ou percebida. Parte das pessoas supera a mágoa; outras a transformam em identidade. Quando isso ocorre, a culpa é direcionada a indivíduos ou à sociedade, criando o desejo de retaliação.

Horgan acrescenta que, nessa fase, o autor costuma pesquisar alvos e táticas com cuidado, inclusive buscando apoio em fóruns virtuais. O compromisso com a fantasia violenta — e não a simples existência dela — é o que diferencia quem parte para a ação, diz o pesquisador.

O gatilho e a identificação com outros agressores

Durante uma crise, especialmente se houver pensamentos suicidas, o potencial atirador pode se identificar com perpetradores anteriores. Se o acesso a armas é fácil, morrer e matar passam a ser vistos como um mesmo ato, aponta Densley.

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Sinais de alerta e prevenção

Quase todos os casos analisados pelos especialistas apresentaram “vazamento”, termo usado por Horgan para descrever ameaças veladas ou explícitas feitas antes do ataque. Colegas e familiares observam mudanças de comportamento, postagens incomuns em redes sociais ou súbito fascínio por armas, mas muitas vezes não agem, destacam os pesquisadores.

Meloy ressalta que, apesar de a violência direcionada não ser previsível devido à baixa incidência, ela pode ser evitada quando esses indícios são levados a sério.

Diferenças entre violência privada e pública

Meloy lembra que a maioria dos alvos de qualquer violência são conhecidos do agressor. Porém, quando o ataque se volta a desconhecidos, surge um componente performático. “As vítimas tornam-se intercambiáveis e o ato ganha a função de enviar uma mensagem”, completa Densley, aproximando-o conceitualmente do terrorismo.

Dois dias antes do massacre em Kahramanmaras, outro estudante abriu fogo em uma escola de Siverek, na província turca de Sanliurfa, ferindo 16 pessoas antes de se matar. Para os especialistas, a repetição de episódios sublinha a importância de reconhecer sinais precoces e agir antes que a fantasia violenta se concretize.

Com informações de Folha de S.Paulo

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