Falta de fisioterapia mantém dores crônicas em 73% dos ribeirinhos do Amazonas

Eirunepé (AM) – O esforço diário na pesca, na roça e no transporte de cargas pesadas faz com que doenças musculoesqueléticas atinjam 73% dos moradores de comunidades ribeirinhas na Amazônia, segundo pesquisas da Universidade Federal do Amazonas. A coluna concentra 38% das queixas.

Na reserva extrativista do rio Gregório, onde a Folha acompanhou uma expedição de saúde, homens e mulheres passam horas carregando madeira, sacas de farinha e frutos de açaí sem equipamentos de proteção. “Sinto muita dor nas juntas do meu braço. Às vezes ouço até um ‘truc’ quando tento levantar”, conta Luzanete Rodrigues do Nascimento, 69 anos, moradora da comunidade do Ubim.

O marido de Luzanete também sofre com bursite após décadas serrando madeira. Ambos nunca receberam fisioterapia; recorrem apenas a analgésicos, anti-inflamatórios e injeções.

Agentes comunitários de saúde confirmam o quadro. Maria Emelie do Nascimento relata que pedidos de remédio para dor são constantes nas visitas domiciliares. Já Raimundo Luciano, da comunidade do Atalaia, estima que 80% dos atendidos reclamam de problemas na coluna.

A enfermeira Maiane Araújo, responsável pela atenção primária em Eirunepé, diz que a falta de acompanhamento especializado aprofunda as limitações funcionais. A prefeitura planeja iniciar sessões de fisioterapia por telessaúde às segundas e terças-feiras, mas o serviço ainda não começou.

No posto fluvial de Eirunepé, o farmacêutico Roberto Monteiro observa que pacientes já chegam solicitando injeções de Beta 30 (dipropionato + fosfato dissódico de betametasona). “Eles não conhecem outra forma de enfrentar a dor”, afirma.

Para Mickela Souza Costa, gerente de saúde da Fundação Amazônia Sustentável, o Ministério da Saúde carece de uma linha de cuidado específica para doenças osteomioarticulares. A referência federal mais próxima são as diretrizes para lesão por esforço repetitivo (LER), insuficientes para ribeirinhos e indígenas.

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Imagem: Internet

A ausência de registros também dificulta políticas públicas. “Sem dados, o problema permanece invisível”, diz Mickela.

A Secretaria de Atenção Primária à Saúde confirma a alta demanda na região e aposta na saúde digital. O programa Viva Mais Brasil enviou quatro kits de telessaúde a Eirunepé, que serão instalados em embarcações que servem as comunidades. A meta é oferecer consultas remotas com fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas e médicos de especialidades como cardiologia e endocrinologia.

Segundo a secretaria, a estratégia prevê resolver o máximo possível a distância e, quando necessário, organizar o deslocamento do paciente com apoio da equipe da UBS local.

Com informações de Folha de S.Paulo

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